Exclusivo: bens e negócios ligados a presidente do Sindnapi incluem 'haras' e construtora - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Exclusivo: bens e negócios ligados a presidente do Sindnapi incluem ‘haras’ e construtora

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Por Claudio Dantas

Presidente do Sindicado Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), o pedetista Milton Baptista de Souza Filho tem paixão por cavalos. Tanto que comprou um rancho e o transformou numa hípica, onde pretendia criar equinos, treinar profissionais e promover competições. O local se chama Recanto Double Horse e fica em Ibiúna, São Paulo. Frei Chico, irmão de Lula, esteve lá no fim do ano.

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Documentos da Junta Comercial indicam que Milton Cavalo — sim, esse é seu nome de guerra no meio sindical — comprou a propriedade em 2010 e depois a reformou. Na época, como mostram imagens de satélite do Google Earth (assista ao vídeo) a área era apenas um grande descampado. Dois anos depois, já tinha uma sede e um galpão, além de uma pista de areia batida.

Em 2017, surgiram baias e a sede sofreu um upgrade, mas ainda era uma estrutura simples. As imagens de 2021 a 2024, porém, mostram uma evolução radical das benfeitorias, com uma propriedade já bem mais completa: o imóvel-sede ampliado, uma área de lazer com piscina e churrasqueira, um estábulo maior e estruturado, com pistas reformadas, arquibancadas e paisagismo profissional.

Com base no preço médio do metro quadrado, só a área da hípica estaria avaliada em cerca de R$ 2 milhões. Com as benfeitorias, esse valor tende a dobrar. Milton chegou a integrar o núcleo de criadores regionais da raça Mangalarga Marchador, tendo o Double Horse como haras registrado. Segundo sua assessoria, porém, ele desistiu do empreendimento, não cria cavalos e hoje usa o local como “espaço de convivência com familiares e amigos” e apenas aluga a estrutura para terceiros.

NEGÓCIOS SINDICAIS

Além de dirigir o Sindnapi, Milton também gerencia a cooperativa Credmetal (Osasco), especializada em consignado; e uma corretora de seguros (Cecresp). Para a CGU, que chegou a apontar erroneamente o sindicalista como sócio da corretora e da cooperativa, haveria risco de conflito de interesses na ocupação de tantas cadeiras ao mesmo tempo.

O conflito de interesses também envolveria sua mulher, Daugliesi Giacomasi Souza. Em julho de 2023, quando Milton ainda era vice-presidente, o Sindnapi a contratou para fazer o projeto de decoração do hotel da entidade em Praia Grande, no litoral paulista — um imóvel com mais 120 quartos –, como mostrou o Estadão.

O valor do contrato não é conhecido, mas o Sindnapi investiu R$ 30 milhões na compra do esqueleto do prédio, que pertencia ao Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos, e na reforma. Alega que Daugliese era profissional reconhecida e que cobrou abaixo do valor praticado pelo mercado. Uma oportunidade, sem dúvida.

DECORADORA E INCORPORADORA

Na Junta Comercial, porém, a empresa de decoração de Daugliese, DG Decor Design de Interiores, só foi aberta quatro meses depois da assinatura do contrato. Não há registros anteriores de sua atuação na área. Em maio deste ano, ela alterou a atividade econômica para incorporação de empreendimentos imobiliários e construção de edifícios. Também abriu uma nova empresa chamada Projetos, Reformas e Construções DGDecor Ltda.

Em janeiro, a mulher de Milton Cavalo abriu na Flórida (EUA) a Dau&Be Investments LLC, em sociedade com a arquiteta Beatriz Aparecida Peixoto. E, em maio do ano passado, o filho Igor Giacomasi Souza também registrou sua própria empresa, Giacomasi Business and Management Ltda, sediada no número 2202, da Avenida Paulista.

A evolução patrimonial da família Cavalo coincide com o crescimento do próprio Sindnapi, cujo faturamento com mensalidades associativas subiu 564% entre 2020 e 2024. Só em 2023, a arrecadação com as mensalidades associativas somou R$ 154 milhões, quase o dobro dos R$ 88 milhões do ano anterior.

Sede da empresa da mulher de Milton Cavalo funciona em casa de luxo na Granja Viana

SIMBIOSE SINDICAL

Enquanto estreava no mercado de decoração, Daugliese mantinha sociedade numa gestora de crédito chamada Crédito Eficiente, também dedicada a consignado. A empresa foi aberta em 2019 com o advogado Carlos Afonso Galleti Júnior, genro de João Batista Inocentini, presidente histórico do Sindnapi e responsável pela contratação da mulher de seu vice para decorar o hotel dos aposentados.

Inocentini, que morreu em agosto de 2023, sendo substituído por Milton, foi quem entregou a Carlos Lupi, em janeiro daquele ano, a carta pedindo um libera geral nos descontos das mensalidades associativas e também um apoio do governo Lula à Coopernapi, sua cooperativa. Daugliese deixou a Crédito Eficiente em junho do ano passado.

Antes, ela também foi sócia da Faber Code Softwares Ltda, fornecendo sistemas de gestão para entidades de classe, inclusive para o Sindicato de Metalúrgicos.

Nesta semana, durante audiência pública na Comissão de Segurança da Câmara, o delegado da Polícia Federal Carlos Henrique Oliveira de Sousa confirmou que o Sindnapi também é investigado na Operação Sem Desconto, desmentindo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

CAVALO NÃO FALOU

A reportagem enviou para a assessoria de Milton Cavalo, na quarta-feira 28, vários questionamentos. Mas o dirigente sindical não respondeu até o fechamento da reportagem, na sexta-feira 30.

Posteriormente, a assessoria enviou a seguinte nota com esclarecimentos que foram inseridos na reportagem:

Em relação à matéria “Exclusivo: bens e negócios ligados a presidente do Sindnapi incluem haras e construtora”, publicada em 30/05/2025, o presidente do Sindnapi, Milton Baptista de Souza Filho (Milton Cavalo), esclarece que:

1. A chácara mencionada foi adquirida em 2010, sete anos antes de Milton Cavalo ingressar no Sindnapi e treze anos antes de se tornar presidente da entidade. A titularidade do imóvel está devidamente formalizada e o local é utilizado para convivência social com familiares e amigos — incluindo Frei Chico e qualquer pessoa que venha a ser convidada —, no legítimo exercício do direito de propriedade.
2. A matéria tenta transformar a chácara do presidente do Sindnapi em algo suspeito. Primeiro, a descreve como um haras — o que não é. Depois, sugere tratar-se de um local suntuoso, com cavalos que custariam até R$ 15 milhões, o que é absolutamente falso.
3. As melhorias e modificações realizadas na chácara foram feitas ao longo dos anos com recursos próprios, fruto do trabalho pessoal de Milton Cavalo, sem qualquer relação com arrecadações do Sindnapi. A reportagem busca sustentar ilações com base em simples capturas de tela, num recorte grosseiro e desonesto da realidade.
4. A chácara possui cerca de 15 estábulos alugados a terceiros que possuem cavalos, cabendo ao presidente apenas a guarda desses animais. Portanto, é falsa a afirmação de que ele possui cavalos avaliados em R$ 15 milhões.
5. A pista de areia existente no local não difere de um simples campinho de futebol, como é comum em chácaras e sítios interioranos. Não há criação de cavalos, treinamento de profissionais ou promoção de competições, como insinua a reportagem. A chácara recebeu apenas uma competição de pequeno porte, há mais de 10 anos, muito antes de Milton Cavalo se tornar presidente do Sindnapi.
6. Ao publicar uma matéria com erros factuais graves, o portal comete uma injustiça contra a imagem do Sindnapi e de seu presidente, além de especular de forma indevida sobre patrimônio que Milton Cavalo não possui, ferindo sua honra e reputação. Diante disso, requer-se a imediata supressão das informações incorretas e a publicação desta nota ao final da reportagem, conforme assegurado pela legislação brasileira.

 

Confira também os questionamentos enviados pela reportagem ao dirigente sindical:

  • Na qualidade de presidente do Sindnapi, o Sr tomou conhecimento de denúncias de associados sobre descontos associativos ilegais ou relativos a empréstimos consignados? Se sim, quais providências tomou?
  • O Sr. recebe salário do Sindnapi? Há outras formas de remuneração? O Sr tem outras atividades empresariais?
  • O Sr possui uma hípica chamada Recanto Double Hourse. Pode confirmar quando ela foi adquirida, valor e origem dos recursos? A hípica sofreu ampliações e reformas nos últimos anos, ganhando uma série de benfeitorias. Os recursos para essas melhorias são fruto do seu salário como presidente do Sindnapi ou de outras atividades empresariais? Em caso positivo, quais?
  • O Sr cria quantos Cavalos Mangarla Machador? Pode esclarecer a origem dos recursos para aquisição? O Sr também negocia embriões? Possui outras raças?
  • Sua esposa foi citada numa reportagem recente do Estadão por ocasião da abertura de empresas na Flórida e por causa da contratação dela como decoradora do hotel de Praia Grande. Pode confirmar o valor do contrato?
  • O Sindnapi informou ao jornal que Daugliese trabalha há tempos como decoradora, sendo reconhecida profissional, mas não há registros de empresas anteriores em nome dela com essa atividade. Na verdade, ela integrou o quadro societário de uma Gestora de Crédito e de uma empresa de Software de Administração para Entidades Sindicais. Poderia detalhar qual exatamente o histórico dela na atividade de decoração? Ela atuava paralelamente às demais atividades?
  • Essas empresas fecharam contratos com o Sindnapi e/ou outros sindicatos e entidades? Esses contratos foram resultado de chamada pública ou concorrência? A renda das empresas das quais sua esposa e/ou foi sócia integram o capital da Hípica?
  • A empresa de Daugliese está sediada em residência própria no condomínio da Granja Viana? Pode esclarecer com que recursos o imóvel foi adquirido? Foi aberta recentemente uma empresa também em nome de seu filho Icaro, sediada em apartamento próprio também adquirido com recursos do casal?

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