A agência Leiaute Comunicação e Propaganda Ltda, ligada a Sidônio Palmeira, firmou mais de R$ 1,5 bilhão em contratos com a Secretaria de Comunicação do governo da Bahia durante as gestões de Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. Levantamento deste site no Portal da Transparência do estado indica que, desse total, a agência já recebeu mais de R$ 900 milhões e o restante está pendente de pagamento.
O valor dos contratos da Leiaute representa quase 30% de todos os gastos da Secom em quase 20 anos de administração petista e quase metade dos R$ 3,5 bilhões investidos em publicidade no período. Ela também concentra 74% daquilo que foi efetivamente pagos a todas as agências de propaganda contratadas — 16 no total.
Os contratos baianos não têm equivalentes no resto do país e se sobressaem por uma característica peculiar: Sidônio é um dos raros marqueteiros que, após a eleição do candidato, acaba abocanhando também contratos da gestão do próprio cliente. Foi assim que ele entrou na Bahia após eleger Jaques Wagner para o Palácio de Ondina, em 2006. Foi assim em sua reeleição e na eleição subsequente que entregou o estado ao comando de Rui Costa.
Foi assim também em 2022, quando colocou os dois pés na campanha de Lula e o reconduziu, da cadeia para o Palácio do Planalto. Neste caso, ocorreu algo ainda mais surpreendente: o marqueteiro pulou o balcão e virou o próprio secretário de Comunicação do presidente.
Diante do evidente conflito de interesses, Sidônio deixou formalmente o quadro social da Leiaute, que continuou sob a tutela dos sócios. Raul Rabelo, seu braço direito, passou a tocar o dia a dia da agência e, recentemente, foi contratado pelo PT como marqueteiro do próprio Lula, protagonizando nos bastidores uma dobradinha inédita com seu ex-sócio e atual secretário de Comunicação. Não há nada semelhante a isso na história do marketing político brasileiro.

Valores escalaram
O primeiro contrato identificado, no levantamento deste site, foi assinado em julho de 2009, durante o primeiro mandato de Jaques Wagner, no valor de R$ 132 milhões. Em 2014, final de seu segundo mandato e quando tentava eleger Rui Costa, o então governador renovou com a Leiaute por mais que o triplo do valor anterior, chegando a R$ 412 milhões. Em 2021, Costa garantiu outra renovação, quase dobrando a cifra para R$ 710 milhões.
No ano passado, Jerônimo Rodrigues abriu nova concorrência, no valor de R$ 1 bilhão, cabendo à Leiaute a parte de R$ 200 milhões. Ao longo dos anos, outros contratos menores também foram firmados e não só com a Secom baiana. Nem todos os valores foram liquidados desde então, fazendo com que o montante fosse sendo rolado ao longo dos anos. Atualmente, o saldo a pagar é de R$ 655 milhões.
Como funciona a remuneração
A Leiaute não embolsa integralmente os valores dos contratos de publicidade, que são destinados à compra de mídia em veículos de comunicação, mas recebe honorários por essa intermediação e comissões sobre todos os serviços executados, incluindo taxa de 8% incidente sobre a produção realizada por fornecedores terceirizados. A agência já foi alvo de investigação por suspeita de fraude na contratação de serviços terceirizados, mas acabou assinando um acordo de não persecução cível e o caso foi arquivado.
Questionado pela reportagem sobre os novos achados, o Tribunal de Contas do Estado da Bahia informou que os novos contratos também serão objeto de auditorias programadas, mas que os trabalhos ainda não foram iniciados. Este site também procurou a Secretaria de Comunicação Social do Governo da Bahia e a agência Leiaute, desde 8 de julho, mas não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.
Três governos em um?
Quem olha de fora a sequência de contratos da Leiaute com a administração petista tem a sensação de que se trata de um mandato só e não de cinco mandatos sequenciais com 3 diferentes governadores. É como se as gestões de Jerônimo e Costa fossem apenas um prolongamento da própria gestão de Wagner, que chegou a assumir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE) do estado após perder a Casa Civil em consequência do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.
Como secretário de Rui Costa, ele privatizou a Ebal, entregando o Credcesta para o banco Master, de Daniel Vorcaro e Augusto Lima. Investigado agora pela Polícia Federal por suspeita de corrupção, o senador foi obrigado a deixar a Liderança do governo Lula no Senado, enquanto Sidônio articulou uma estratégia de mídia para blindar o presidente, mas sem abandonar o aliado baiano.
No início do mês, Lula foi a Bahia para demonstrar apoio ao ex-líder, chamando-o de irmão e simulando a inauguração das obras da Ponte de Itaparica, numa estratégia atribuída a Sidônio, mas que acabou desmascarada pela oposição nas redes – a obra não existe. Oriundo da escola baiana de Duda Mendonça e João Santana, o atual chefe da comunicação do presidente parece trilhar caminho semelhante.

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