Na última terça-feira (20), foi lançado pela produtora Brasil Paralelo o documentário “MST: Terra Prometida”. A direção de Elton Mesquita é competente — a história flui naturalmente dos depoimentos, com uso muito econômico de narração. Estive na noite de estreia, em Brasília. Desde então, tenho estado mais atento ao tema.
Ontem, em um restaurante em que jantei, estavam tocando músicas da Rita Lee. “Amor é latifúndio, sexo é invasão”, canta ela na canção de 2003 escrita com o marido Roberto de Carvalho, inspirada em uma crônica de Arnaldo Jabor. “Invasão está mais para estupro”, pensei.
No mesmo dia, morreu em Paris aos 81 anos o fotógrafo mineiro Sebastião Salgado, mestre do preto-e-branco que muito fez para romantizar o Movimento dos Sem-Terra (MST) no Brasil. Não foi o único. Mais influente que ele foi a novela O Rei do Gado (1996-97), da TV Globo, uma das mais populares da história.
Se você é brasileiro, suas referências culturais são assombradas pelo MST e sua suposta causa, a reforma agrária.
No ano passado, o MST completou 40 anos. Até hoje não foi constituído como uma pessoa jurídica, como conta o documentário. O movimento sobreviveu a uma Comissão Parlamentar de Inquérito em 2023, mas as críticas estão se intensificando. No filme da Brasil Paralelo, atingem um zênite.
Na falta de personalidade jurídica, o MST usa uma rede de cooperativas com CNPJ para receber recursos públicos. Este ano, o governo alocou R$ 750 milhões do orçamento para o MST. Você, pagador de impostos, está financiando um movimento que desestabiliza o direito de propriedade, um dos elementos mais importantes da liberdade econômica, e incentiva a insegurança jurídica no país. Portanto, um movimento que ajuda o Brasil a permanecer pobre.
“Nasci os dentes votando no PT de Lula”, disse no documentário a ex-integrante do MST Sueli Santos Souza. “Agora prefiro a morte”.
Entrevistei o diretor do documentário, Elton Mesquita. Ele disse que, nos cinco meses de viagens para colher entrevistas, tentou sem sucesso se aproximar do MST para que ele apresentasse seus supostos casos de sucesso. O movimento marca a Brasil Paralelo como parte da “direita” e se recusa a conversar com ela. Isso, também, é típico da esquerda: gasta saliva alegando que a polarização está ruim, mas é o primeiro lado a vetar o diálogo.
O melhor do documentário são os ex-integrantes do MST
No lançamento estavam presentes pessoas influentes da direita, como o Capitão Derrite (secretário de Segurança Pública do estado de São Paulo). Entre os entrevistados que aparecem no filme, que também incluem Derrite, há outras personalidades influentes, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o ex-presidente do INCRA no governo anterior, Geraldo Melo.
Mas quem realmente rouba a cena no filme são os ex-integrantes do MST. São eles que dão os relatos mais impactantes, tanto a respeito de seu drama pessoal quanto a respeito da grande desonestidade por trás do movimento. Alguns deles, como Vanuza Souza e Liva Costta, prestaram depoimento à CPI do MST — que o próprio Costta diz que “terminou em pizza”.
A primeira incongruência a ser notada é que o MST é um movimento marxista que alega estar atuando pelo direito de propriedade individual, um direito que foi mais historicamente atacado do que defendido por comunistas. Em abril de 2023, o jornal The New York Times chamou o MST de “talvez o maior movimento inspirado no marxismo que opera dentro de uma democracia”.
Liva Costta e outros ex-membros matam a charada dessa incongruência: o MST não quer que os assentados ganhem títulos de posse, dizem. O movimento “não gosta de documentos nas áreas”, relata o ex-integrante, mostrando seu Contrato de Concessão de Uso, primeiro passo para a propriedade de terra que ele obteve durante o governo de Jair Bolsonaro. Antes, relata o ex-militante, ele ficou à margem da obtenção do título “em obediência ao MST”.
“Parecia ser um monstro”, diz Costta sobre a percepção de Bolsonaro comum entre os militantes da reforma agrária. Mas foi esse “monstro” que concedeu 400 mil títulos de terra, ele lembra. A informação é verdadeira, mas veículos alinhados com o petismo tentam diminuir: os títulos “são apenas provisórios”, publicou a revista Carta Capital em 2022.
Os ex-integrantes dizem mais: que a obtenção do título é uma “carta de alforria para sair das mãos do MST”. A comparação tem certa literalidade: eles relatam que há posseiros trabalhando em condições análogas à escravidão para o movimento, informação que é corroborada pelo deputado Ricardo Salles (Novo-SP), que presidiu a CPI e é um dos entrevistados.
Liva Costta e Vanuza Souza dizem ter sido parte do que é chamado no MST de “linha de frente”. Seria um braço executor das invasões do movimento, que derruba cercas, “coloca fogo” e, se as ordens forem essas, faz o dono da terra de refém. Em manobra típica de movimento de esquerda, o MST finge que não existem líderes. Mas existem, e eles usam de táticas específicas.
O líder mais conhecido é o fundador João Pedro Stédile, que foi na comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a China. Na CPI, ele pareceu apoiar a ideia de que o MST pode criar as próprias leis. “As regras são da própria comunidade”, disse ele, que atribui casos de abuso e violência a tomadores de decisões locais, tentando inocentar o MST como um todo. As comunidades invasoras têm “a própria lei”, acrescentou Stédile.
“Não pode faltar velho e criança” na linha de frente, contam os ex-membros. O objetivo é desencorajar os proprietários a usarem o período legal de 48 horas para reaver suas terras, por medo de ferir pessoas vulneráveis, usadas como escudo humano.
“Nunca lutaram pela reforma agrária”, afirmou Vanuza. Os líderes do MST querem “escravos para ocupar o que quiserem e votar em quem indicarem”.
O New York Times antecipou muito do que foi mostrado no documentário da Brasil Paralelo, como a doutrinação das crianças em ideologia de extrema esquerda em “escolinhas” que ganham nomes como “Che Guevara” e “Hugo Chávez”.
Mas “Terra Prometida” tem informações inéditas, como imagens de autoridades do INCRA tentando expulsar a família Bettim de suas terras no município de São Mateus, Espírito Santo. O INCRA alega que as terras são improdutivas, mas a família nega. O caso continua em litígio.
No encontro entre o INCRA e os Bettim na porta da sede da propriedade, estava presente a superintendente local do INCRA, Maria da Penha Lopes. O documentário a mostra posando com o boné do MST. É urgente investigar a cooptação desse órgão de Estado pelo movimento marxista de invasão de propriedades.
O INCRA é um problema grande. Criado no Regime Militar, o órgão administra cerca de 200 milhões de hectares do nosso território — uma França e uma Alemanha juntas. Se as terras administradas pelo INCRA fossem um estado, seria o segundo maior da Federação. Ele foi criado para desapropriar terras improdutivas, mas até hoje a maior parte da reforma agrária foi feita na Amazônia, o que é de pasmar. Além de Penha Lopes, há denúncias de que 18 outros superintendentes do INCRA foram indicados por Stédile.
Especialistas ouvidos no documentário afirmam que a razão para isso é que não há mais terras improdutivas, hoje o principal alvo do MST seriam terras produtivas, e o INCRA tem emitido pareceres supostamente fraudulentos nessa direção.
Uma prova do interesse do MST em terras produtivas foi quando destruiu um pomar de mil laranjeiras no Centro-Oeste paulista, em 2009. Não foi caso isolado: em 2015, o movimento também destruiu 15 anos de pesquisa em biotecnologia em Itapetininga, no mesmo estado.
“Todos nós fazemos parte do agronegócio”
Um dos ex-integrantes do MST mais perceptivos entrevistados pela Brasil Paralelo foi Cláudio Márcio Tomé. Ele conta que, no caso de uma fazenda em que esteve entre os invasores, os líderes do movimento se entrincheiraram na grande sede, que tinha até heliponto, e “jogaram na braquiária” o resto dos militantes. Foi assim que ele percebeu que o MST é um “movimento com comportamento autoritário”.
Bastou Cláudio discordar da cartilha, para ouvir ameaças dos dirigentes: “Você está no lugar errado. A região vai ficar pequena para você”, ele relata ter ouvido.
Por reflexão própria, Cláudio Tomé foi aprendendo mais a respeito da vida no campo em contraste com a narrativa do MST. O movimento trata o agronegócio como “malvadão”, “narrativa que venderam”. Mas “todos nós fazemos parte do agronegócio”, reflete ele sobre o papel do pequeno produtor. Hoje ele pensa que é preciso “destruir o muro do ‘nós vs. eles’”.
O MST recruta pessoas pobres, com frequência vivendo nas ruas de grandes cidades, e as coloca nas invasões rurais. O resultado disso, já que essas pessoas não têm conhecimento de como lidar com a terra, é a favelização do campo. “Se você não entender seu pedaço de terra como uma agroempresa, está fadado ao fracasso”, explica Tomé.
O apoio de Sebastião Salgado ao MST foi longe. Ele cedeu os direitos autorais de seu livro “Terra”, de 1997, ao MST. Uma das fotos mais famosas do livro é de uma menina de cinco anos de uma família de sem-terra. Joceli Borges, a menina, foi localizada pela Folha de S. Paulo em 2012 e, na época, estava morando em acampamento do MST em área invadida em que os donos tentavam reintegração de posse. Ela relatou que perdeu a própria mãe, vítima de um tiro na cabeça.
O caso é bem ilustrativo. Quem está no MST e é seduzido pela promessa de terra de graça não recebe o título da propriedade, às vezes recusa o título a mando do movimento, e fica na mesma por décadas. Quem entende que o comunismo não funciona, que vivemos num mundo de escassez, mas que a liberdade econômica existe para criar riqueza em vez de tentar tomá-la dos outros, que busca conhecimento da terra, trata seu sítio como um negócio como outro qualquer, tem a oportunidade de prosperar como parte do mesmo agronegócio demonizado pelos marxistas do MST.
O MST, junto com o marxismo que o “inspira”, é um movimento obsoleto. E enquanto for influente no nosso país e regado a impostos, essa obsolescência será contagiosa.
