Um levantamento realizado com a plataforma Brandwatch, especializada no monitoramento de redes sociais por meio de inteligência artificial, e divulgado pela Veja identificou forte indício de atuação de robôs e perfis suspeitos em defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contra possíveis adversários da oposição. O estudo analisou o período de 1º de julho a 2 de setembro e revelou padrões de publicações que levantam dúvidas sobre a autenticidade do debate público digital.
O primeiro recorte do estudo foi o número de publicações envolvendo os presidenciáveis. Lula concentrou cerca de 8,7 milhões de menções, um volume sete vezes maior que o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 1,2 milhão. Os demais nomes cotados para 2026 — Romeu Zema (Novo), Ratinho Jr. (PSD) e Ronaldo Caiado (União Brasil) — aparecem com números muito inferiores, o que evidencia um ambiente dominado por interações ligadas ao atual presidente e ao governador paulista.
Sentimento das publicações e comportamento dos usuários indicam automatização
Na análise qualitativa, Lula apresentou o maior índice de menções positivas, próximo de 40%, e o menor de negativas, por volta de 50%. O cenário de Tarcísio é inverso: ele registra o maior índice negativo e o menor positivo entre os nomes monitorados. A diferença no termômetro de popularidade sugere que a militância digital tem atuado não apenas para fortalecer Lula, mas também para desgastar seus opositores.
Outro ponto levantado foi a distribuição das menções entre os usuários. No período, 364.045 perfis únicos citaram Lula, quase o dobro dos que falaram sobre Tarcísio. A média de publicações por usuário também é discrepante: quem mencionou Lula postou 24 vezes no período, enquanto os que falaram sobre Tarcísio registraram apenas sete menções. No caso dos demais governadores, a média não passou de duas publicações.
A concentração de postagens em poucos perfis é outro indício de comportamento automatizado. Um exemplo é o usuário @tvcidooficial, que sozinho publicou 13.754 vezes sobre Lula, média de 214 menções por dia, chegando em determinados momentos a ultrapassar mil posts em apenas 24 horas.
Narrativas mais comuns associam opositores de Lula a crimes
Entre os termos mais usados por perfis que defendem Lula, aparecem expressões como “Brasil”, “soberano”, “guerreiro”, “congresso”, “Bolsonaro preso” e “Lula é o povo”. Já os comentários ligados a Tarcísio, em sua maioria negativos, exploram temas como “propinão”, “PCC”, “piores governadores da história do Brasil” e “Bolsonaro te taxou”.
O estudo também observou menções de apoio ao Supremo Tribunal Federal (STF), com expressões como “Estamos com Moraes” e “Brasil com STF”. Chama atenção o fato de que 10 dos 25 perfis mais ativos contra Tarcísio também figuram entre os que mais elogiam Lula, o que reforça a suspeita de ação organizada.
A pesquisa concluiu que há forte atuação de perfis coordenados, que podem ser tanto robôs quanto integrantes de uma militância digital estruturada. Essa movimentação altera a dinâmica da discussão pública, uma vez que concentra o debate em mensagens repetitivas e pouco orgânicas, dificultando análises confiáveis de opinião social.
De acordo com o relatório, a estratégia adotada pelos apoiadores de Lula busca associar Tarcísio de Freitas a narrativas de corrupção, ao PCC — alvo de operações recentes do Ministério Público paulista — e ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A prática, segundo o estudo, inaugura uma “nova realidade de ataques de reputação no ambiente digital, marcada por práticas explícitas e sistemáticas”.
