Durante o programa Alive, exibido nesta quinta-feira (22) no YouTube, o jornalista Cláudio Dantas questionou a forma de atuação do ICE (Immigration and Customs Enforcement) nas recentes operações contra imigrantes ilegais nos Estados Unidos. O foco foi a descaracterização dos agentes, o uso de veículos não identificados e o impacto da imagem pública dessas ações.
Dantas afirmou que a ausência de identificação visível dos agentes tem gerado forte reação. Segundo ele, há relatos de abordagens feitas por homens mascarados, sem coletes ou sinais oficiais. “Tem muita gente falando, já chamando o ICE de gestapo do Trump”, disse. Ele ponderou que a esquerda utiliza o tema politicamente, mas avaliou que esse tipo de operação “abre flanco” para críticas, sobretudo pelo impacto visual e simbólico das ações.
A cientista política Júlia Lucy destacou que as imagens das abordagens produzem comoção além do público diretamente afetado. Ela afirmou que existe um componente empático na reação da população e lembrou que, há décadas, parte da economia cotidiana americana incorpora o trabalho do imigrante ilegal. Citou exemplos como babás, trabalhadores da construção civil e serviços domésticos, cujo custo reduzido impacta o padrão de consumo da classe média. Para ela, a política ostensiva do ICE pode influenciar o humor do eleitorado às vésperas das eleições de meio de mandato. Júlia observou que, historicamente, presidentes perdem apoio nas midterms e questionou se esse cenário pode se repetir em 2026.
O advogado André Pinelli, que atua nos Estados Unidos, afirmou que a pauta migratória foi central para a eleição de Donald Trump. Ele disse que, ao lado da economia, foi um dos principais motores da vitória republicana. Pinelli explicou que o ICE passou por uma expansão acelerada após a aprovação da chamada One Big Beautiful Bill, que ampliou o orçamento e a estrutura da agência. Segundo ele, o ICE hoje possui um orçamento superior ao de forças armadas de países como Brasil, Alemanha e Inglaterra, ficando atrás apenas de grandes exércitos globais.
Pinelli atribuiu o endurecimento das operações ao que classificou como abertura total das fronteiras durante governos anteriores. Ele relatou que a entrada irregular ocorreu tanto pela fronteira sul quanto pelo Canadá e estimou que cerca de 15 milhões de pessoas tenham ingressado ilegalmente no país nos últimos anos. Para ele, o sistema de saúde e educação passou a sofrer sobrecarga, o que aumentou a insatisfação da população.
Sobre o uso de agentes descaracterizados, o advogado afirmou que a prática não é inédita e ocorre em forças policiais de diversos países. Ele disse que há dois fatores centrais: a proteção dos agentes diante do aumento de ataques e o fator surpresa, que aumenta a eficácia das detenções. Segundo Pinelli, operações visíveis facilitariam fugas e colocariam os agentes em risco.
O advogado afirmou que, nos estados que cooperam com o ICE, como Flórida e Texas, a maioria das detenções ocorre a partir de prisões já existentes, como casos de embriaguez ao volante. Já em cidades e estados-santuário, as operações de rua tendem a ser maiores e mais complexas. Ele disse que o objetivo central do governo Trump é tornar inviável a permanência do imigrante ilegal no mercado de trabalho, estimulando a saída voluntária. “É a autodeportação”, afirmou.
Pinelli também relatou que os centros de detenção estão operando no limite e que o custo de expandir essa estrutura é elevado. Para ele, a estratégia busca efeito dissuasório, tanto para quem já está no país quanto para quem pretende entrar. O advogado declarou ainda que houve abuso generalizado do sistema de asilo e classificou a maioria dos pedidos analisados por seu escritório como fraudulentos.
Ao tratar do cenário eleitoral, Pinelli afirmou que as pesquisas indicam risco para os republicanos nas midterms de 2026, com possibilidade de perda da Câmara. Ainda assim, disse que há uma estratégia para atrelar a imagem de Trump às eleições e citou o envolvimento direto de Elon Musk no financiamento e mobilização da campanha. Para ele, o principal adversário republicano não é o Partido Democrata, mas a abstenção. “O inimigo é o sofá”, afirmou, ao dizer que a desmobilização do eleitor conservador pode definir o resultado das eleições.
