Já é praticamente um consenso na imprensa americana: Gavin Newsom, democrata que governa a Califórnia desde 2019, está tentando reformar sua imagem como um político de centro, certamente de olho nas eleições presidenciais de 2028.
Se há menos de um ano, em julho, Newsom assinou uma lei estadual para permitir que as escolas escondam a autodeclaração trans de crianças de seus próprios pais, agora ele diz que é “profundamente injusta” a inclusão de atletas trans no esporte feminino.
A declaração foi feita nesta quinta-feira (6), no episódio de estreia de seu novo podcast. O convidado do episódio em si já é digno de nota: Charlie Kirk, um influenciador pró-Trump que publica vídeos de debates com estudantes universitários.
Ao anunciar o novo podcast, em fevereiro, Newsom já tinha avisado a quem quisesse adivinhar seus convidados que olhasse “a lista da CPAC”, sigla para Conferência de Ação Política Conservadora.
Newsom concordou com Kirk não só quanto a essa injustiça, mas também que as propagandas eleitorais negativas de Donald Trump contra Kamala Harris mais efetivas foram as que abordaram a pauta trans. As peças da campanha do candidato vencedor mostravam o apoio que Harris deu para projetos de oferta de transição de gênero paga com impostos para imigrantes ilegais e prisioneiros.
“Ela nem reagiu a isso, o que foi ainda mais devastador”, comentou o político, já de olho em derrotar a adversária de partido nas próximas primárias presidenciais. Para Newsom, 90% dos americanos devem discordar da posição de Kamala Harris na questão.
No programa, Newsom também se distanciou da moda identitária da declaração de pronomes, do uso de linguagem neutra como “latinx” (que a maioria dos latinos cidadãos dos EUA desaprova) e chamou a ideia de cortar verbas da polícia, muito popular no progressismo durante a febre racial de 2020, de “loucura”. Além disso, criticou a “cultura do cancelamento”.
O governador disse que seu podcast é inspirado no trabalho de Bill Maher, apresentador de talk show da HBO que é eleitor democrata, mas jamais cedeu à onda do identitarismo.
O Partido Democrata não parece estar acompanhando a estratégia centrista do político: nesta semana, os senadores democratas votaram contra um projeto republicano para impedir transexuais de participarem do esporte feminino juvenil.
“Estamos sendo esmagados nesse assunto. Esmagados. Esmagados”, disse Newsom a Kirk.
Trump ataca pesquisa com “camundongos transgêneros”
Em seu longo primeiro discurso ao Congresso esta semana, o presidente americano disse que o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), chefiado por Elon Musk, havia encontrado desperdício de dinheiro em pesquisas nas quais foram gastos “oito milhões de dólares para tornar camundongos transgêneros”.
A checagem de fatos da CNN alegou que a afirmação de Trump era “falsa”, mas depois emitiu uma correção: “uma versão anterior deste texto caracterizou incorretamente como falsa a alegação de Trump sobre dinheiro federal ter sido gasto em ‘tornar camundongos transgêneros’. O artigo foi atualizado com contexto adicional sobre o gasto, que foi para pesquisas sobre impactos em potencial à saúde humana de tratamentos usados na transição de gênero”.
Outros comentaristas passaram vergonha ao alegar que o comentário de Trump, que não deixa de ser uma simplificação, era uma confusão entre “transgênero” e “transgênico”. Não era.
Pelo visto, Newsom tem razão. Os democratas continuam sendo esmagados sempre que a pauta trans entra na ordem do dia.
Ontem (5), a Casa Branca publicou um artigo defendendo a afirmação de Trump e dando mais detalhes sobre “desperdício, fraude e abuso” nas verbas de pesquisa. O artigo não economiza no tom: “os perdedores das fake news da CNN tentaram fazer checagem de fatos, mas o Presidente Trump estava certo (como de praxe)”.
A Casa Branca deu os títulos dos seis projetos de pesquisa que ganharam ao todo US$ 8,29 milhões: “Um camundongo modelo para testar o efeito de terapia hormonal afirmativa de gênero em respostas imunológicas induzidas pela vacina de HIV”, “Consequências reprodutivas de administração de hormônios esteroides”, “Terapia afirmativa de gênero com testosterona nos riscos e resultados de tratamento de câncer de mama”, “Efeitos mediados por microbioma na terapia hormonal afirmativa de gênero em camundongos”, “Efeitos androgênicos no eixo reprodutivo neuroendócrino” e “Hormônios gonadais como mediatores de influências de sexo e gênero na asma”.
Os títulos, por si sós, não são suficientes para afirmar que todas essas pesquisas foram desperdício de dinheiro. Mas, como o título de um dos projetos, com custo de US$ 735 mil, fala explicitamente em “terapia hormonal afirmativa de gênero em camundongos”, não se pode colocar a culpa em Trump por pensar que o propósito da pesquisa foi “tornar camundongos transgêneros”.
Claro, não é possível aplicar o termo “transgênero” em camundongos e teria sido melhor falar apenas que os roedores estavam tomando o hormônio do sexo oposto ao seu próprio. Mas o termo “transgênero”, a rigor, não se aplica sequer a seres humanos. Se o leitor quiser entender o porquê, perdoe-me pelo “jabá”, mas a resposta está no meu livro que será lançado na semana que vem: “Mais iguais que os outros” (Avis Rara).


