Um dos abusos de linguagem mais comuns em política é a rotulação de si próprio como opositor de certo movimento ou fenômeno social claramente deplorável, seguido de um comportamento igualmente deplorável justificado como “combate ao mal maior”.
Foi o que aconteceu com o rótulo “antirracista”. Como explico em meu livro Mais Iguais que os Outros (Avis Rara, 2025), os intelectuais que mais insistiram em se rotular como “antirracistas” nos últimos anos se davam licença moral para se expressarem de forma racista.
Foi o caso de Ibram X. Kendi, que acusou a juíza Amy Coney Barrett de racismo por adotar crianças negras. Outra intelectual “antirracista” celebrada, Robin DiAngelo, disse o seguinte em 2023: “As pessoas de cor precisam se afastar dos brancos e formar comunidades exclusivamente entre si”. Um proponente das leis de segregação racial “Jim Crow” no Sul de seu país poderia dizer o mesmo. Se esses são os antirracistas, quem precisa de racistas?
Meu conselho, no livro, foi este: se você é contra o racismo, é melhor não se rotular “antirracista”.
Os antifascistas fascistas
Algo análogo acontece com um conjunto de organizações de ativismo de extrema esquerda que usam o rótulo “antifascista” ou Antifa.
O muro de Berlim era chamado pelos comunistas da Alemanha Oriental e pelos soviéticos de “Muro de Proteção Antifascista”. O nome tinha um contraste formidável com o fato de que as pessoas queriam cruzá-lo para o lado “fascista”, nunca para o lado “democrático”.
Uma consequência imediata desse uso histórico é que, com frequência, “antifascista” significa simplesmente comunista, e o rótulo “fascista” aplicado a seus adversários é na maior parte inadequado e uma tática desonesta.
Como a esperança de derrubada do liberalismo econômico (“capitalismo”) foi devidamente desidratada com argumentos técnico-científicos na economia e outras áreas mais objetivas das ciências humanas, restou aos comunistas adotar a identidade de opositores de um suposto “fascismo”.
A derrocada da credibilidade do comunismo veio acompanhada de desespero: sem ver saída para sua obsessão de derrubar o sistema econômico e eliminar os mais ricos, alguns comunistas e adeptos de outras utopias como o socialismo mais genérico e a anarquia criaram o movimento Antifa para perseguir sua missão com táticas violentas. Os chamados black blocs são basicamente idênticos ou têm poucas diferenças.
Tendo a ideologia comunista já resultado em regimes totalitários, e lembrando que o próprio Benito Mussolini definiu que o fascismo tem como característica “tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”, a aproximação de muitos Antifa com o fascismo é óbvia, excluindo apenas aqueles que chegam ao movimento pela via do anarquismo.
Embora o fascismo não seja propriamente um movimento político intelectualizado, nem mereça ser tratado como “teoria política” (como faz o guru de Vladimir Putin, Aleksandr Dugin), Mussolini tentou organizar uma caracterização intelectual de seu movimento na obra La Dottrina del Fascismo (1932).
No livro, Mussolini caracteriza o fascismo como um movimento que vê a si mesmo como a culminação da história (assim como Marx achava que o comunismo seria o destino final da história); prega a confusão entre conflito de ideias e conflito de pessoas em que é importante “saber morrer” pelas ideias com as quais se tem um laço afetivo em vez de justificação racional; alega que tudo na vida é política, um mantra hoje mais comum na esquerda em geral e nos Antifa em particular; defende o anti-individualismo e o coletivismo, tratando “povos” como mais importantes que indivíduos como nível de análise e prioridade moral, subordinando o indivíduo ao povo e sinonimizando povo a Estado — como comunistas querem fazer com a classe proletária; exalta um belicismo existencial, com admiração pela ideia de que a história é feita de um eterno conflito entre povos, assim como muitos comunistas romantizam a guerra de classes.
Ou seja, até o ponto em que o fascismo é baseado em ideias, os “antifascistas” são muito parecidos com os fascistas, especialmente ao violarem direitos individuais por uma utopia coletivista no horizonte. O único aspecto em que poderia haver diferença é na espiritualidade, já que Mussolini tenta, de forma pouco sofisticada, introduzir o elemento religioso ao seu movimento, enquanto Antifa são em geral secularistas — mas há um argumento a ser feito aqui sobre a forma como sacralizam suas utopias políticas.
Para o indivíduo que está sendo censurado, espancado e intimidado com gritos a respeito de supostas transgressões contra a coletividade, fascismo é indistinguível do suposto “antifascismo”.
Como o movimento Antifa aterrorizou os EUA nos últimos anos
Os ditos “antifascistas” têm atacado nas ruas americanas especialmente conservadores que eles xingam de fascistas. Eric Clanton, um militante Antifa que é professor universitário de filosofia — sem surpresa até aqui, sinto dizer —, até 2017 havia atacado no mínimo sete pessoas com um pesado cadeado de bicicleta com o qual ele golpeava suas cabeças. Naquele ano, viralizaram imagens de um homem sangrando pela cabeça após ser atingido por Clanton em Berkeley, Califórnia.
Outra vítima dos Antifa foi o jornalista Andy Ngo, que fez um trabalho pioneiro de cobrir as atividades dos militantes nos EUA. “Trabalhando com um celular e uma câmera GoPro nova”, conta Ngo em seu livro Unmasked (2021), “lentamente me desloquei até ficar à frente da multidão” de cerca de 400 militantes em Portland, Oregon.
“Alguns dos manifestantes me reconheceram. Eles me encararam e sussurraram aos camaradas. Luis Enrique Marquez olhou diretamente para mim. O membro de 48 anos do Rose City Antifa havia sido preso tantas vezes em protestos violentos de Portland nos anos anteriores que ele nem se dava mais ao trabalho de usar uma máscara.”
Ngo ignorou os olhares e continuou cobrindo. Até que “alguém ou algo me atingiu com força na nuca. Quase caí ao chão com o impacto”. Antes que ele pudesse se virar para ver quem foi, “um mar de corpos vestidos de preto me cercou. No fundo, ainda ouvia a multidão gritando ‘sem ódio!’ Ironicamente, o que vi e senti depois foi a pura encarnação do ódio”.
Os militantes Antifa atingiram a cabeça e rosto do jornalista com socos enquanto usavam luvas táticas de fibra de vidro. Alguns usavam o soco-inglês, objeto de metal que se encaixa nos dedos. Roubaram sua câmera, intensificaram o ataque quando ele levantou os braços tentando se render e uma pessoa o chutou duas vezes na virilha. O jornalista sangrou pelo ouvido. Atendido por um hospital universitário, descobriu que teve hemorragia cerebral.
Além de Andy Ngo, outras sete pessoas foram feridas e duas hospitalizadas no mesmo dia em maio de 2021, vítimas da violência Antifa. A organização Rose City Antifa reivindicou a autoria dos ataques. Ngo é gay, conservador e filho de imigrantes vietnamitas, difícil de rotular como “fascista”, mas a precisão da acusação não é o objetivo. O objetivo é aterrorizar críticos da extrema esquerda.
Uma semana depois que o ativista conservador Charlie Kirk foi assassinado com um tiro no pescoço, ao tentar debater com universitários, por um homem que gravou nas balas as mensagens “Ei, fascista, pega!” e a música Bella Ciao, popular entre os Antifa, o presidente americano Donald Trump prometeu classificar oficialmente o grupo como organização terrorista.
O New York Times expressou ceticismo diante da promessa, pois Trump disse o mesmo em maio de 2020, último ano de seu mandato anterior, e não conseguiu cumprir. O jornal, de inclinação progressista, deu uma definição de Antifa com ressalvas simpáticas: a “ação direta” que os adeptos pregam só “às vezes” cruza a linha da ilegalidade e da violência. A publicação também alega que os militantes querem “parar a extrema direita”, sem especificar que o rótulo “extrema direita” é uma classificação feita por eles que é frequentemente desonesta.
O que é terrorismo? É “o uso calculado da violência para criar um clima geral de medo em uma população e assim fazer valer um objetivo político em particular”, define a enciclopédia Britannica.
Por essa definição, o Antifa é de fato um movimento terrorista. O que o NYT disputa é que seja uma organização terrorista, como disse Trump. “Antifa é um rótulo para uma subcultura política ou estilo de protesto”, disse o jornal.
O FBI não contabiliza quantos crimes foram cometidos pelo movimento Antifa porque o considera uma ideologia, não uma organização, como colocou o chefe do órgão em 2020. Naquele ano, o Departamento de Justiça acusou mais de 300 pessoas por crimes “cometidos durante protestos por todo o país”. Sem previsão legal, ninguém é rotulado oficialmente como “Antifa”.
Contudo, a lei americana não prevê a necessidade de que o terrorismo seja configurado em organizações delimitadas para ser terrorismo. Nem a lei brasileira, a propósito. O que é tipificado é o uso da violência para fins políticos. A Lei Antiterrorismo do Brasil é mais específica, exigindo que os atos sejam “por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião”.
Os obstáculos a Trump classificar o Antifa oficialmente como terrorismo são mais técnicos. É mais fácil para um presidente dos Estados Unidos classificar o terrorismo internacional — como Trump fez com os cartéis de tráfico de drogas da América Latina — do que o doméstico, em parte por causa das amplas proteções à liberdade de expressão e pensamento no país.
A classificação oficial do “antifascismo” como terrorista poderia atropelar os direitos de expressão dos adeptos da ideologia ou de quem se rotula assim, mas não participa necessariamente de organizações violentas. Gozam das mesmas proteções os grupos neonazistas dos EUA como o Atomwaffen, que, quando são investigados e punidos em conjunto, são tratados como organizações criminosas (criminal enterprises), não oficialmente sob o rótulo de terrorismo.
Enquanto Andy Ngo observou 400 militantes Antifa em uma só manifestação, o Atomwaffen, em contraste, tem no máximo 80 membros e atuou pouco desde 2018. É a regra em grupos de extrema direita — a famosa organização racista KKK tem no máximo nove mil membros em um país com mais de 340 milhões de pessoas.
É importante lembrar que é uma tática da extrema esquerda camuflar organizações bem delimitadas, com líderes específicos, como se fossem meras ideias postas em prática de forma descentralizada. Assim, tentam evitar que as autoridades identifiquem suas organizações criminosas e enquadrem seus líderes.
Em suma, Antifa com “A maiúsculo” é mais fácil de enquadrar legalmente como organização criminosa ou terrorista do que “antifascismo” com “a minúsculo”.
O esgarçamento do significado de “hediondo” e “terrorismo”
Recentemente, muitos conservadores e liberais criticaram o Itamaraty e o governo Lula por resistirem a classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas, como quer o governo Trump.
O risco de abuso na classificação não deve ser ignorado. Por exemplo, em 10 de janeiro de 2023, ao conceder acesso aos dados biométricos do TSE a Eduardo Tagliaferro, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, chamou de terroristas os atos de 8 de Janeiro no Diário Oficial da União. Ele estava seguindo o vocabulário da imprensa progressista. Mas nem Moraes ousou tentar enquadrar os réus do 8 de Janeiro na acusação de terrorismo, embora as acusações de “golpe de Estado” e “abolição do Estado” sejam absurdas o suficiente.
Para que o CV e o PCC sejam classificados como terroristas no sentido de uso da violência para fins políticos, os fins políticos precisam estar mais claros. As autoridades têm desvendado alguns detalhes das pretensões políticas das facções criminosas, que têm mais natureza maquiavélica que ideológica. Um promotor do Ceará afirma que há mais de 50 políticos no estado ligados ao Comando Vermelho.
Como colocou o NYT, a dificuldade com a classificação dos cartéis do tráfico como terroristas é que seu objetivo último é o lucro, não necessariamente alguma meta política específica. Mas o jornal deveria dar maior abertura a reconhecer que a meta de tomar o poder pela via de formação de narcoestados, como o regime de Maduro na Venezuela, é também uma meta política.
Como o movimento Antifa abusa da semântica ao rotular seus alvos de “fascistas”, seus opositores precisam dar o exemplo de cautela no uso da linguagem.
Além do risco de esgarçamento no uso da rotulação como “terrorista”, há outro exemplo mais claro de desgaste semântico no nosso país: a pressão por classificar cada vez mais crimes como “hediondos”.
A lista dos “crimes hediondos” só cresce: feminicídio foi incluído em 2015, homicídio e lesão dolosa contra membros do sistema de Justiça e seus familiares em 2025, além de crimes em ambiente escolar. Estão tramitando propostas de incluir o “gerontocídio” (assassinato de idosos por serem idosos) e crimes contra o Estado democrático de direito, além de furto e roubo em situação de calamidade pública, lavagem de dinheiro e intolerância violenta contra deficientes.
Engana-se quem pensa que os crimes caem no Brasil quando crescemos a lista daqueles que chamamos de hediondos. Também se equivoca quem pensa que fanáticos políticos violentos serão intimidados depois de serem classificados corretamente como terroristas.
