Parlamentares relataram pressões, listas prontas e centralização de decisões; Lira não é investigado
Depoimentos prestados à Polícia Federal por deputados e um senador detalham um suposto esquema de direcionamento e execução irregular de emendas parlamentares que antecedeu a operação deflagrada nesta manhã (12) contra Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, ex-assessora do então presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). Os relatos apontam pressão política, envio de planilhas sem identificação e centralização da distribuição de recursos bilionários. Lira não é investigado.
Além das oitivas, a PF reuniu dados extraídos de celulares e outros elementos.
O deputado José Rocha (União-BA) afirmou que, ao assumir uma comissão ligada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, recebeu minutas e planilhas prontas enviadas pela presidência da Câmara por meio de Fialek. Os documentos previam a destinação de R$ 1,125 bilhão, sem qualquer informação sobre autores, objetos ou beneficiários.
Rocha disse ter encaminhado uma lista ao governo, mas reteve outras por falta de transparência. Entre elas, uma planilha de R$ 320 milhões destinada a Alagoas.
“Recebi uma relação com R$ 320 milhões para Alagoas, sem dizer o que ia ser feito nem quem era o autor. Essa eu segurei”, relatou.
Segundo ele, após a retenção, Arthur Lira telefonou cobrando a liberação e mencionou risco de destituição da comissão.
“Ele disse que eu estava criando problema e que eu sabia que poderia ser destituído por uma moção de desconfiança da bancada”, disse Rocha.
Alagoas como prioridade
O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) confirmou ter sido procurado por Rocha e relatou à PF que a lista enviada priorizava Alagoas e interesses políticos ligados a Lira.
“Ele recebeu uma lista para liberar emendas que priorizava o estado do Arthur Lira. Quando não executou, recebeu uma ligação com ameaça de voto de desconfiança”, afirmou.
Glauber disse ainda que as emendas de comissão passaram a funcionar como no antigo orçamento secreto, com controle concentrado na presidência da Câmara. Citou Rio Largo (AL) como destino de volumes “escandalosos” de recursos, enviados inclusive por comissões sem deputados alagoanos.
A servidora Elza Carneiro dos Santos Figueiredo relatou tentativa de encaminhar ofícios assinados pelo vice-presidente da comissão enquanto Rocha estava em viagem, procedimento que considerou irregular. Após contestar a medida, afirmou ter sido retirada do cargo de secretária da comissão.
Sem discussão nos colegiados
A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) disse à PF que as emendas de comissão nunca eram debatidas formalmente. Segundo ela, decisões vinham “de cima”, sem participação dos parlamentares.
“Eu dizia que não era laranja de ninguém. Todo mundo tinha que saber para onde o dinheiro ia”, afirmou.
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) relatou ter sido abordado por intermediários que ofereciam “parcerias” com ONGs sem vínculo com seu estado, o que o levou a suspeitar de atuação paralela.
“Fiquei com a impressão de que havia gente rodando gabinetes para pedir emenda”, disse.
A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino no STF. Com base nos depoimentos e na quebra de sigilo telemático, Mariângela Fialek é apontada como responsável por operacionalizar o esquema sob investigação.
