Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), presidido por Gabriel Galípolo, algumas mensagens bem claras foram passadas para quem acompanha a interação entre política fiscal (Haddad sendo o chefe) e monetária (Galípolo sendo o chefe) no Brasil. O destaque foi uma sinalização contundente: não basta o Banco Central agir sozinho para controlar a inflação. A eficácia da política monetária depende também de decisões coordenadas na esfera fiscal.
Neste artigo, você vai entender:
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O que o Copom quis dizer com “canais desobstruídos”
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Como as políticas do governo podem comprometer o controle da inflação
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Por que o recado é direto para Lula e Haddad
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E o impacto disso tudo para juros, investimentos e crescimento
Prepare-se para compreender as entrelinhas do comunicado e o que ele revela sobre os desafios da economia brasileira.
O que são os canais da política monetária?
Os canais da política monetária são os mecanismos por meio dos quais a taxa Selic afeta a inflação e a atividade econômica, quais sejam:
- Canal do crédito: juros mais altos encarecem financiamentos e reduzem a concessão de crédito.
- Canal do consumo e investimento: taxas mais elevadas reduzem a demanda por bens e serviços, desacelerando a economia.
- Canal cambial: juros elevados atraem capital estrangeiro e valorizam o real, o que reduz a inflação via importações.
- Canal das expectativas: a credibilidade do Banco Central ajuda a manter as expectativas de inflação sob controle, o que reduz o próprio avanço dos preços.
Se algum desses canais estiver bloqueado, por exemplo por políticas expansionistas (como a ampliação de crédito subsidiado via BNDES, o reajuste real do salário mínimo etc), o efeito da Selic sobre a inflação enfraquece. E isso exige juros ainda mais altos para surtir efeito.
“Elementos mitigadores”: o alerta do Copom ao governo
Na ata, o Copom usa a seguinte expressão:
“A construção da confiança […] passa por assegurar que os canais de política monetária estejam desobstruídos e sem elementos mitigadores”.
Traduzindo: se o governo continuar tomando medidas que contrariam a política monetária, como expandir crédito subsidiado ou romper com regras fiscais, o Banco Central será forçado a manter juros altos por mais tempo.
A mensagem tem destino certo: Palácio do Planalto e Ministério da Fazenda.
Para que consigamos alcançar a desinflação, é preciso que a responsabilidade seja compartilhada. O Copom sinaliza que, se a desinflação for mais lenta ou custosa, parte da culpa será do próprio governo. Em outro trecho da ata, lê-se:
“Em ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.”
Ou seja, quando há desconfiança quanto à condução da política fiscal e à estabilidade econômica, o Banco Central precisa compensar com juros mais altos.
Outro trecho da ata reforça essa preocupação:
“O esmorecimento no esforço de reformas […] e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra […] com impactos deletérios sobre a potência da política monetária.”
Isso significa que, sem responsabilidade fiscal, o país se acostuma com juros reais mais altos, prejudicando investimentos, crescimento e geração de renda. É ruim para todo mundo!
Conclusão: o recado do Copom está dado
Mesmo com tom técnico e institucional, e sem dar guidance se aumenta, reduz ou mantém a taxa de juros na próxima reunião, o Copom deixou claro: juros mais baixos dependem de uma política fiscal alinhada ao controle inflacionário.
O Banco Central está fazendo sua parte. Agora, a responsabilidade também recai sobre o governo.
Presidente, vamos acordar antes que seja tarde demais!
Leia também a minha análise do último Boletim Focus, publicada ontem.
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