Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que o banqueiro Daniel Vorcaro transferiu ao menos R$ 700 milhões em ativos do Banco Master para uma holding no exterior durante o período em que negociava a venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB).
A operação acabou sendo rejeitada posteriormente pelo Banco Central (BC). As informações são do jornal O Globo.
De acordo com os registros, os recursos foram direcionados para a Master Holding, posteriormente rebatizada como Titan Holding, estrutura registrada nas Ilhas Cayman e vinculada a Vorcaro. A empresa funciona como uma holding patrimonial destinada a concentrar bens pessoais do empresário, como imóveis, aeronaves e veículos.
As movimentações começaram em janeiro de 2025, com a cessão de cotas do fundo Quíron por R$ 85 milhões. No mês seguinte, o Banco Master transferiu à mesma holding participações no fundo Saint German, avaliadas em R$ 66 milhões.
A maior operação ocorreu em abril, quando cotas do fundo GSR foram repassadas para o fundo Krispy, em transação estimada em R$ 555 milhões. Segundo o Coaf, a holding de Vorcaro aparece como cotista desse fundo.
Em relatório enviado às autoridades, a unidade de inteligência financeira registrou suspeita sobre as movimentações. Técnicos do órgão afirmaram que os valores identificados seriam incompatíveis com o patrimônio declarado pelo cliente nos registros cadastrais.
Ainda conforme o Coaf, em julho de 2025 a holding realizou uma aplicação adicional de R$ 314 milhões no fundo Tessália. Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que os fundos Quíron e Tessália possuem participação societária na empresa de saúde Oncoclínicas.
Em novembro do ano passado, as ações da companhia recuaram 13% após a divulgação de que a empresa mantinha cerca de R$ 433 milhões aplicados em CDBs do Banco Master, um de seus acionistas.
Parte dos ativos ligados aos fundos transferidos ao exterior inclui precatórios em disputas judiciais envolvendo empresas do setor de energia e saúde contra o poder público.
As movimentações ocorreram paralelamente às negociações entre o Banco Master e o BRB. Investigações da Polícia Federal apontam que as conversas sobre a venda da instituição começaram no fim de 2024 e avançaram ao longo de 2025.
A PF também apura suspeitas de operações envolvendo cartas de crédito consideradas irregulares que teriam sido oferecidas ao banco estatal. A negociação acabou cancelada após análise indicar que os ativos não possuíam expectativa de pagamento.
Mesmo após o anúncio da possível aquisição em março de 2025, o Banco Central decidiu barrar a operação em setembro do mesmo ano.
No dia 5 de março deste ano, o BC determinou a indisponibilidade de bens da Titan Capital Holding, antiga Master Holding. A decisão foi baseada na participação indireta da offshore no controle do Banco Master.
Pela legislação, administradores e controladores de instituições financeiras submetidas à liquidação ficam impedidos de transferir ou vender patrimônio até a conclusão das apurações sobre eventuais responsabilidades.
A medida alcança controladores que exerceram participação direta ou indireta na instituição nos 12 meses anteriores ao processo de liquidação.
Os relatórios do Coaf são produzidos quando transações financeiras se enquadram em critérios legais de suspeita de lavagem de dinheiro. Os documentos não indicam a ocorrência de crime, mas são encaminhados a autoridades responsáveis por conduzir investigações.
