Funcionários de telemarketing usados pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, recebiam prêmios, viagens e presentes caros como parte do esquema bilionário de descontos indevidos aplicados contra aposentados do INSS.
O golpe consistia no uso de centrais de atendimento que, além de cadastrar os aposentados nas entidades suspeitas, também operavam o “SAC das fraudes”, o setor responsável por atender as vítimas que ligavam para reclamar de descontos feitos diretamente na folha de pagamento, sem qualquer autorização prévia. A denúncia foi revelada pelo portal Metrópoles nesta segunda-feira (12).
De acordo com uma ex-funcionária das empresas Truetrust e Callvox, ligadas ao grupo, os operadores eram recompensados com viagens mensais para Belo Horizonte, onde recebiam dinheiro para compras, jantares em restaurantes de luxo e passeios turísticos.
“Tinha jantar em um restaurante chique. A gente visitava o Mineirão, ia à feira lá de Belo Horizonte. Era uma empresa dos sonhos, todo mundo queria trabalhar”, disse ela, sob anonimato, por temer represálias.
As viagens eram lideradas por Domingos Sávio de Castro, sócio do “Careca do INSS”, e Adelino Rodrigues Junior, ligado à Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), também investigada. A Polícia Federal apontou que, a partir de novembro de 2023, os deslocamentos de Domingos para Belo Horizonte se intensificaram, coincidindo com o auge da fraude.
Segundo a PF, duas entidades com sede na capital mineira estão no centro do esquema: a Unaspub, que transferiu R$ 4,8 milhões para a conta pessoal de Domingos Sávio, e a Abrasprev, que realizou uma “transação atípica” de R$ 540 mil para ele.
A empresa Truetrust, formalmente registrada como ACDS Call Center, foi criada em junho de 2023 e pertence ao “Careca do INSS” e a Domingos Sávio. O nome, segundo a PF, faz alusão às iniciais dos sócios. Ambos são acusados de embolsar milhões das entidades e de pagar propina a dirigentes do INSS, incluindo familiares. Um dos beneficiados seria o escritório de advocacia do filho do ex-diretor de Benefícios do INSS André Fidelis, responsável por assinar os acordos que permitiram os descontos.
A funcionária relatou que Adelino Rodrigues Junior, tratado como “Junior”, atuava no dia a dia do atendimento e possuía procuração para agir em nome da CBPA. Ele também teria autorizado pagamentos à esposa de um ex-procurador do INSS. Outros nomes citados como gerentes do esquema aparecem nas investigações por envolvimento em transferências suspeitas.
O procedimento de atendimento era padronizado e os operadores deviam prometer reembolso em 10 dias. Com o tempo, os prazos aumentaram para 20 e depois 30 dias, mas os reembolsos tornaram-se cada vez mais raros desde o fim de 2024.
Além do roteiro, os operadores eram instruídos a justificar os descontos com links supostamente enviados via WhatsApp, como se houvesse consentimento do aposentado. A prática escancarou o uso do sistema de call center como engrenagem central da fraude que roubou milhões de reais diretamente dos benefícios dos segurados.
