Lucas Mesquita, o infiltrado, é assessor do governo Lula e já trabalhou com Dilma
Uma reportagem publicada pelo jornalista David Agape revelou novos detalhes sobre a operação do Supremo Tribunal Federal (STF) contra empresários acusados de trocar mensagens de um suposto “tom golpista” em grupos de WhatsApp, em 2022. O caso voltou à tona após depoimento de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Alexandre de Moraes, em audiência no Senado, nesta terça-feira (2).
Tagliaferro afirmou que os relatórios usados para justificar as buscas e apreensões contra empresários foram produzidos com datas retroativas, a partir de uma reportagem publicada por Guilherme Amado no Metrópoles. Segundo ele, a ordem partiu de Airton Vieira, assessor de Moraes. O perito disse ainda que as mensagens do grupo de WhatsApp chegaram a ele por intermédio da jornalista Letícia Sallorenzo, conhecida como “Bruxa” da Vaza Toga.
A apuração de Agape identificou que o infiltrado responsável pelo repasse das mensagens foi o jornalista e documentarista Lucas Mesquita. Hoje assessor do governo Lula, Mesquita começou a carreira na campanha de Dilma Rousseff e Michel Temer, em 2010. Em seguida, abriu uma produtora em Brasília e passou a dirigir documentários políticos.
Mesquita ficou conhecido por se infiltrar em grupos de WhatsApp ligados à direita. No grupo Parlatório, que reunia empresários, jornalistas e políticos como Sergio Moro, permaneceu por anos em silêncio, até criticar Moro em 2022, quando foi expulso.
O mesmo método foi aplicado no “grupo dos empresários”, cujas mensagens acabaram nas mãos do Metrópoles. Para se manter oculto, Mesquita simulava neutralidade política. Em abril de 2022, chegou a escrever: “Ainda tenho esperança de alguém conseguir aglutinar as forças de centro e ir pro segundo turno, para aí sim derrotar Lula ou Bolsonaro.”
O primeiro vazamento, em maio daquele ano, levou à condenação de Luciano Hang por danos morais ao padre Julio Lancellotti. No grupo, Hang reagiu: “Pessoal aqui no grupo temos um X9, um dedo duro… Não sou contra a parte social, falei dele, desse caso específico, da militância de esquerda.”
Em janeiro de 2024, foi nomeado assessor no Ministério do Empreendedorismo, comandado por Márcio França. Nas redes, mantém registros de encontros com Lula, Flávio Dino e Moraes.
A operação do STF usou vazamento do infiltrado
Em 23 de agosto de 2022, dez dias antes do primeiro debate presidencial, foram cumpridos mandados em cinco estados, com bloqueio de redes sociais e apreensão de celulares de empresários como Hang (que ficou mais de dois anos com as redes fora do ar), Meyer Nigri e Afrânio Barreira.
O STF divulgou que a ação tinha ligação com inquérito da PF sobre atos antidemocráticos. Mas Tagliaferro disse que isso não é verdade. Ele relatou ainda que, após a operação, recebeu ordem para forjar relatórios retroativos.
Um mapa mental teria sido criado em 28 de agosto, mas anexado ao processo como se fosse de 22 de agosto. Para a oposição, trata-se de uma fraude grave. Senadores já solicitaram os arquivos mencionados e querem ouvir Airton Vieira e integrantes da PF.
Agape também resgatou a trajetória de Amado, que deixou o Metrópoles em 2024 por quebra de exclusividade ao colaborar com o Instituto Conhecimento Liberta. Ele já havia sido alvo de críticas por reportagem sobre Filipe Martins, que acabou preso com base em informações depois desmentidas.
