Por JH Fonseca
Economia crescendo mais de 5% em 2025, inflação desabando, salários subindo,
miséria caindo e preços dos ativos batendo recordes. Para pessoas com alto grau
de conhecimento econômico, uma rápida olhada para a Argentina seria suficiente
para perceber que o país tinha entrada no rumo certo. Não por menos, o governo de
Milei foi elogiado recentemente por autoridades como Financial Times e The
Economist.
1: inflação mensal despencou após a entrada de Milei
Porém, faltou combinar com o eleitor médio
No último domingo, Javier Milei tomou uma surra nas eleições locais da província
de Buenos Aires. É verdade que a região é tradicionalmente peronista, mas
esperava-se uma derrota por 5 pontos percentuais e não cerca de 14 pontos. Com
efeito, os mercados sofreram o maior tombo desde a pandemia, o risco país
explodiu (rompeu os 1.000 pontos) e o dólar disparou.
Por quê? Imaginem, por exemplo, que as eleições para o governo de Minas Gerais
fossem dois meses antes das eleições gerais em 2026 no Brasil. Depois, imaginem
que um candidato bolsonarista perdesse do PT lá por 57% a 43%, ao invés de algo
até 53% a 47%. Qual seria a previsão dos analistas políticos para as eleições gerais
ao ver tal resultado? Provavelmente, a conclusão seria: “aquilo que estava difícil
ficou quase impossível”. No Brasil polarizado de hoje é muito improvável que
alguém se eleja presidente perdendo de 14 pontos em Minas Gerais.
Na Argentina a lógica é a mesma. As eleições gerais para deputados e senadores
da são no final do mês que vem e o resultado de domingo fez o Mercado recalibrar
suas apostas na viabilidade da agenda de Milei. O libertário ainda pode surpreender
com as províncias do interior, mas estatisticamente é inegável que seu desafio para
a governabilidade aumentou.
Mas por que Milei sofreu tanto nas urnas?
A Argentina é um país que, ao longo das décadas, viu: seu governo viciar em
irresponsabilidade fiscal; sua elite viciar em subsídios e seus pobres viciarem em
programas sociais. Desde que assumiu, Milei optou por um tratamento rápido e de
choque – muito diferente ao gradualismo tentado por Macri, que também
fracassou. Em pouco tempo, a “motosserra” do presidente colocou as contas do
país de volta no verde, mas mexeu em muitos interesses. Abaixo quatro exemplos:
1. “Bolsas Progresar”: programa social criado por Cristina Kirchner para
supostamente apoiar jovens de baixa renda a voltarem a estudar. Milei
cortou o programa em 64%, o que foi considerado pela mídia um dos “cortes
mais duros”.
2. “Potenciar Trabajo”: voltado para desempregados, informais etc. Equivalia
a 50% do salário mínimo da Argentina. Milei congelou o benefício em 78.000
pesos, que hoje equivalem a menos de 30% do salário mínimo argentino e
iniciou uma auditoria que excluiu milhares de beneficiários.
3. Subsídios de energia: voltado para classe média e ricos da área
metropolitana de Buenos Aires (AMBA). Milei cortou toda a ajuda do governo.
4. Subsídios industriais: Milei cortou em cerca de 68% todos os tipos de
subsídios, muitos que ajudavam empresas ineficientes e pouco
competitivas.
A lista de cortes não para e a fotografia revela uma infiltração pesada do peronismo
não apenas entre os mais pobres, mas também entre partes da elite.
Diferentemente do Brasil, onde o “assistencialismo de ricos” ainda é incipiente, na
Argentina ele já estava disseminado.
É vício, pois – embora cause conforto inicial – piora a vida do viciado
A Argentina era um dos países mais ricos do mundo antes de o peronismo infestála com intervencionismo estatal, assistencialismo e déficit público. A nação ficava
entre os maiores PIBs per capita até 1930, quando competia com o Canadá, e só
foi superada pela Itália após os anos 1960.
2: PIB per capita argentino e canadense no século XX (escala logarítmica)
3: Comparação entre o PIB per capita argentino e o italiano, em recorte do
século XX (em dólares internacionais, ou Geary-Khamis dollars, GK$
O vício não faz bem ao paciente, mesmo assim ele recidiva nas ideias erradas de
sempre em busca de alívio de curto prazo. Eleição após eleição, já são mais de 70
anos que o peronismo empobrece a Argentina. A situação só piora, mas o vício vive.
O eleitor argentino foi capturado por paixões ideológicas e assistencialismo, que o
cegam para a constatação do seu empobrecimento constante.
Macri tentou fazer um tratamento gradual e deu errado, pois perdeu a paciência dos
mercados. Milei está tentando fazer um tratamento rápido e de choque, mas está
perdendo a paciência dos eleitores. Se Milei falhar, que outra receita sobrará?
João Henrique da Fonseca (JH Fonseca): economista e sócio fundador da Azul
Wealth Management (AWM), com mais de R$1,1 bilhão sob gestão



