Pouca gente sabe, mas a ideia do SBT News surgiu num almoço que tive com Fábio Faria anos atrás. Disse a ele que a emissora de Silvio Santos tinha um potencial gigante para um canal exclusivo de notícias, à la Fox News, considerando seu imenso público conservador. Ele gostou da ideia, levou ao dono, assinamos um NDA e desenhei com o então diretor de Jornalismo um projeto integrado às plataformas digitais e à rede aberta.
Na hora de colocar a TV na rua, porém, Fábio recuou e acabou lançando apenas um site que nunca teve grande relevância. Não acompanhei. Semanas atrás, quando vi a notícia de que o canal finalmente seria lançado, mandei-lhe uma mensagem de parabéns e desejei boa sorte. Ele me ligou e conversamos por 5 minutos. Minha única pergunta, claro, foi sobre a linha editorial: “Neutra”, disse ele. Nos despedimos.
Na sexta-feira, fui surpreendido — como tantos outros espectadores — com a presença de Alexandre de Moraes, Lula e Tarcísio de Freitas no evento. O que veio a seguir foi constrangedor: o ministro do Supremo usou o palco para comemorar o fim da Magnitsky, disse que “a verdade prevaleceu” e que “em era de desinformação, é fundamental ter um canal sério como o SBT News.”
Nos bastidores, Moraes foi flagrado em conversas ao pé do ouvido com Lula, que devolveu os elogios também em discurso. “Sua vitória é a vitória da democracia”, afirmou.
Tarcísio, que poderia ter feito algum contraponto, abandonou toda a cautela e abraçou a narrativa oficial contra o que chamou de “polarização afetiva”. “É hora de mudar essa chave”, emendou, sendo também flagrado nos bastidores em conversa animada com o petista. Se Tarcísio nem parecia o ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, o que dizer de Fábio Faria, que comandou o Ministério das Comunicações? Rei morto, rei posto.
Nenhuma menção ao governo passado, nem uma palavra de solidariedade ao ex-presidente preso ou de preocupação com sua saúde ou com a de milhares de manifestantes inocentes condenados por um golpe que nunca foi tentado. Nenhum respeito à memória de Silvio Santos. Abrir a emissora fundada por um judeu sefardita para aliados de regimes e grupos terroristas antissemitas, está sendo vista na comunidade como traição imperdoável.
Em seu discurso, Faria tentou justificar todo o enredo cabuloso com o clichê de que “o SBT não tem partido, não tem lado”. Mas os discursos e os patrocinadores demonstram o contrário. Faria e as herdeiras de Silvio talvez não tenham experiência suficiente para compreender que neutralidade não se confunde com omissão, nem imparcialidade com submissão.
Ou simplesmente debocham da inteligência de sua audiência, o que será sempre uma aposta arriscada.
Desconectar-se da audiência, distanciar-se de seus valores para servir a interesses absolutamente contrários, costuma ser um erro fatal para qualquer veículo de comunicação. Mas abrir mão de fiscalizar o poder, defender a legalidade e ouvir todos os lados é hipotecar antecipadamente a credibilidade de qualquer canal. Se nem o entretenimento pode ser acrítico, o que dizer do jornalismo?!
Análise: Ao livrar Moraes, Trump isola Flávio e impulsiona Tarcísio
