A ata mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central revela um cenário cada vez mais desafiador para a condução da política monetária no Brasil. Em meio a um ambiente externo marcado por incertezas econômicas e geopolíticas, especialmente em relação à conjuntura e condução da política econômica nos Estados Unidos. O Comitê reforça a necessidade de cautela por parte das economias emergentes.
No plano doméstico, ainda que a atividade econômica e o mercado de trabalho mantenham forte dinamismo, começam a surgir alguns sinais de moderação, tanto na produção quanto no consumo das famílias. Apesar disso, a inflação corrente permanece acima da meta, o hiato do produto se mantém em patamares elevados, e, mais preocupante, as expectativas inflacionárias para 2025 e 2026 sofreram nova elevação, subindo para 5,7% e 4,5%, respectivamente, sugerindo uma desancoragem gradual e persistente.
Neste contexto, a ata reafirma a preocupação do Banco Central com a credibilidade da política monetária e com a necessidade de manter a taxa de juros em patamar restritivo por mais tempo do que se previa anteriormente. O documento também acende um alerta sobre os riscos associados à falta de harmonia entre a política fiscal e a política monetária, além do impacto que esse desalinhamento pode ter sobre a taxa de juros neutra da economia.
Ao longo desta análise, destacaremos os principais trechos da ata, avaliando os fundamentos que sustentam a decisão atual do Comitê e os sinais emitidos para os próximos passos da política monetária. A mensagem é clara: o combate à inflação exige não apenas perseverança, mas também um ambiente institucional que favoreça a previsibilidade e a coordenação das políticas públicas.
O cenário econômico:
O COPOM deixou claro na ata da 269ª reunião que o cenário é complexo e os desafios para o controle inflacionário são enormes, mas dá a luz algumas ressalvas indicando pontos que podem deixar o Galípolo um pouco mais tranquilo, são estes:
– Desaceleração da atividade econômica no 4º trimestre de 2024, com o PIB crescendo apenas 0,2%, frente a um crescimento de 1,3% e 0,7% nos dois trimestres anteriores.
– Consumo das famílias caiu após 13 altas consecutivas, indicando uma redução na demanda agregada
– O mercado de crédito tem sofrido uma desaceleração gradual, o que tende a impactar restringindo a oferta por moeda, fruto do aperto nas condições financeiras e aumento do prêmio de risco
Por outro lado, dos principais pontos que devem preocupar o Galípolo estão:
– A forte incerteza econômica no cenário externo, principalmente em relação à política comercial dos EUA e como isso deve impactar a economia dos países emergentes
– O hiato do produto e a demanda agregada, apesar dos primeiros sinais de arrefecimento, seguem em patamares extremamente elevados e o setor de serviços demonstra forte resiliência ainda.
– Além disso, as expectativas de inflação dos agentes econômicos seguem projetando mais inflação para o futuro, o que leva o BACEN a ter que adotar um aperto monetário mais elevado e por um período maior.
Análise L4 Capital:
“A demanda agregada foi estimulada pelas mãos da política fiscal de forma demasiada nos últimos anos, este tipo de política fez o PIB brasileiro crescer 3,5%. No entanto, esse crescimento não deve se sustentar, pois como sempre na história brasileira o crescimento vem acompanhado de inflação e posteriormente, estagnação, ou até, recessão. Crescimento, no longo prazo só se sustenta se vier acompanhado de choques tecnológicos, aumento de capital humano e aumento da produtividade total dos fatores de produção. Os estímulos à demanda agregada deveriam servir apenas para suavizar a atividade econômica e servir de colchão para choques exógenos que possam vir impactar a economia, no entanto governos populistas continuam procurando este meio para angariar votos do eleitor mediano e permanecer no poder.”
Dos fatos relevantes ressaltados na ata pelo COPOM segue a convicção de ser necessário que as políticas econômicas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê evidenciou, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas. No período recente, a percepção dos agentes econômicos sobre o regime fiscal e a sustentabilidade da dívida seguiu impactando, de forma relevante, os preços de ativos e as expectativas dos agentes. O Comitê reforçou a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade.
Comentário análise L4 Capital:
“Atualmente, a forte aversão do Banco Central diante da incerteza econômica no cenário externo — amplamente destacada na ata — é ampliada em decorrência de políticas fiscais irresponsáveis, que elevaram o risco país e tornam o Brasil mais vulnerável a mudanças no ambiente internacional. A taxa de câmbio, nesse contexto, tem exercido impacto direto sobre os níveis de preços no mercado interno, sobretudo devido à alta dependência da matriz insumo-produto nacional em relação às importações. Em 2024, o real foi a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar. Diante disso, o cenário de incerteza global, impulsionado pelas políticas dos Estados Unidos, tende a pressionar ainda mais a inflação brasileira.”
O BACEN ainda destaca que o balanço de riscos permanece assimétrico, indicando maior probabilidade de uma inflação mais elevada do que aquela contemplada no cenário base e para a próxima ata indicou que o aperto monetário deve continuar, no entanto em uma magnitude menor que a de um ponto percentual, como fora aplicado.
