Principal assessor de Lula para política externa, o ex-chanceler Celso Amorim confessou ao Globo que seu governo quer mesmo sentar no colo da China, que, segundo ele, “tem hoje uma disponibilidade de recursos para investimento no exterior que os Estados Unidos não têm”. Para o ex-ministro, não se trata de de ideologia, mas pragmatismo.
“A China hoje oferece mais oportunidades ao Brasil e menos riscos. No início do século XX, o Barão do Rio Branco desviou recursos da Europa para os Estados Unidos, porque os Estados Unidos tinham mais disponibilidade para isso do que a Europa. A gente não é quem desvia, mas a gente equilibra.”
Amorim avalia que Donald Trump conduz o mundo para o desmonte do multilateralismo, o que pode acirrar tensões econômicas e provocar uma nova recessão global, nos moldes da crise de 1930.
“Essa quebra do multilateralismo está expressamente dita na nota da Casa Branca, onde também são elogiados acordos do século passado. Sabemos que os acordos de 1930 contribuíram para a depressão. O passado, isso foi o prelúdio da 2ª Guerra Mundial. Houve necessidade de fomentar a indústria armamentista para levantar as economias. Porque o consumidor não tinha mais força. O consumo dos indivíduos, das famílias, não era suficiente para levantar as economias. As economias só começam a se levantar quando começa a haver a perspectiva da guerra. Espero que dessa vez não se chegue a isso”, declarou.
Durante a entrevista, Amorim também celebrou o papel do BRICS na consolidação de parcerias bilaterais e trilaterais estratégicas para o Brasil, ressaltando as relações com China e Rússia: “O Brasil tem hoje uma relação com a China muito mais forte. Com a Rússia, talvez, não tanto por causa da guerra, mas, mesmo assim, é muito forte”.
Para melhorar a relação com Putin, talvez Amorim queira trocar a cervejinha pela vodka.
