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Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião com o ditador da Rússia, Vladimir Putin. Grande Palácio do Kremlin, Moscou. Foto: Ricardo Stuckert / PR

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Por Márcio Coimbra

A política externa brasileira atravessa hoje uma perigosa indefinição ética. Ao buscar um estreitamento de laços com a Rússia em meio à invasão da Ucrânia, o Brasil não apenas desafia o consenso das democracias ocidentais, mas flerta com a erosão de sua própria identidade.

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O regime de Moscou, uma autocracia que cerceia a liberdade e persegue opositores, utiliza a força militar como ferramenta sistemática de expansão. Para um país que se orgulha de suas instituições, o silêncio — ou a cordialidade excessiva —configura uma dissonância cognitiva diplomática que compromete nossa credibilidade junto a parceiros que compartilham de nossa arquitetura de valores.

Essa aproximação torna-se ainda mais incompreensível quando se nota que o Brasil negligencia evidências graves de que sua própria soberania tem sido instrumentalizada pelo Kremlin.

A descoberta de uma rede de espiões russos operando em solo nacional com identidades fraudulentas é um alerta que Brasília parece ignorar. Agentes como Sergey Cherkasov (Victor Muller Ferreira), Mikhail Mikushin (José Assis Giammaria) e Artem Shmyrev (Gerhard Daniel Campos) revelam que Moscou enxerga o Brasil não como um parceiro de igual estatura, mas como uma “fábrica de identidades” para suas operações globais de infiltração.

Essa falta de respeito manifesta-se também na opacidade das movimentações de aeronaves estatais russas em aeroportos nacionais. Relatos sobre voos suspeitos em Brasília entre 2025 e 2026, envolvendo modelos como o Ilyushin Il-96 e o Tupolev Tu-204, levantam questionamentos profundos. Tais aeronaves realizam rotas complexas para evitar o espaço aéreo europeu, fazendo escalas na África e no Cáucaso antes de pousar em Brasília e rumar para Havana e Caracas.

A ausência de transparência sobre essas cargas sugere uma “diplomacia das sombras” que fragiliza nossa imagem perante o mundo civilizado.

Diante disso, causa perplexidade que o governo estenda o tapete vermelho para o primeiro-ministro Mikhail Mishustin. Tal recepção sugere que o compromisso brasileiro com o Direito Internacional é seletivo. O argumento da necessidade comercial não resiste aos números: as exportações para a Rússia representam ínfimos 0,6% do total nacional.

Em contrapartida, a União Europeia, que lidera as sanções contra Putin, é destino de 15% de nossas vendas. Trocar a possibilidade de acesso preferencial a um mercado de 450 milhões de consumidores pelo fornecimento de fertilizantes russos — insumo que poderia ser diversificado com Canadá ou Marrocos — é um isolacionismo ideológico que nos afasta das cadeias de valor mais sofisticadas do Ocidente.

Há ainda a dimensão humanitária: o sentimento de traição da comunidade ucraniana no Brasil. Com 600 mil descendentes, majoritariamente no Paraná, essa diáspora vê na postura de Brasília uma ofensa ao sofrimento de seus familiares. É doloroso ver o governo confraternizar com um regime cujo líder é alvo de mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra.

Ao incentivar laços com Moscou, o Brasil ignora os riscos reais de retaliação pelas nações livres. O custo Rússia é demasiadamente alto, logo é hora de decidir: ou o Brasil retoma sua liderança moral na ordem global ou mergulha em um isolamento histórico e vergonhoso.

**Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

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