Amapá aplicou R$ 400 milhões no Master apesar de alertas técnicos
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Política

Amapá aplicou R$ 400 milhões no Master apesar de alertas técnicos

Dirigentes indicados por Alcolumbre ignoraram parecer da Caixa e impuseram novo aporte ao fundo previdenciário

Alvo da PF, presidente da Amprev foi indicado por Alcolumbre
Foto: @liesapoficial/Instagram

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Por Redação

Alvos de operação da Polícia Federal na sexta-feira (6), o então presidente da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Lemos, e o conselheiro José Milton Gonçalves forçaram a aprovação de novos aportes no Banco Master, apesar da resistência de integrantes do comitê de investimentos e de alertas técnicos sobre risco elevado de solvência. Ambos foram indicados para os cargos pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

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A pressão ocorreu em reunião extraordinária do comitê em 19 de julho de 2024, quando foi aprovada a compra de R$ 100 milhões em letras financeiras do Master, segundo apuração do O Globo. Àquela altura, a Amprev já havia investido R$ 200 milhões no banco. Com a nova deliberação, o total aplicado chegaria a R$ 300 milhões — valor que depois alcançaria R$ 400 milhões.

A ata da reunião registra que conselheiros levantaram objeções após tomarem conhecimento de parecer da Caixa Econômica Federal que classificava a operação como de alto risco. Técnicos do banco estatal apontaram problemas de liquidez, modelo de negócios “de difícil compreensão” e risco reputacional envolvendo executivos do Master, entre eles o CEO Daniel Vorcaro, alvo de processos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Durante o encontro, o conselheiro Alexandre Monteiro defendeu cautela e sugeriu diligência prévia no banco antes de qualquer deliberação. Gláucio Bezerra apoiou a proposta e relatou ter buscado dados no Banco Central, identificando captação expressiva do Master em letras financeiras meses antes da reunião.

Bezerra alertou para a concentração excessiva do investimento do fundo estadual em um único emissor e sugeriu o envio de ofícios à Caixa, ao TCU e ao próprio banco antes da aprovação. A proposta foi rechaçada pelo presidente da Amprev.

Segundo a ata, Jocildo Lemos minimizou o parecer técnico, classificando as informações como “histórias do mercado”, e afirmou que a Caixa não havia rejeitado formalmente a operação. Ele defendeu que o aporte fosse votado imediatamente, com a promessa de que a operação só seria concluída após uma visita ao banco.

Mesmo diante da discordância de parte do colegiado, a proposta foi colocada em votação. Jocildo Lemos, José Milton Gonçalves e Jackson Oliveira votaram a favor. Alexandre Monteiro e Gláucio Bezerra votaram contra.

As letras financeiras adquiridas não têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, os recursos investidos pelo fundo previdenciário do Amapá têm baixa perspectiva de recuperação.

Após a aprovação, ficou definido que a diligência no banco seria realizada pelo próprio José Milton Gonçalves. À época, ele já era investigado por irregularidades em outro fundo previdenciário no estado. Em setembro de 2025, o Tribunal de Justiça do Amapá determinou seu afastamento do comitê, decisão que não foi cumprida pela Amprev. Gonçalves só deixou o cargo após a operação da PF, por ordem judicial.

A ligação política entre dirigentes do fundo e o grupo do senador Davi Alcolumbre ganhou destaque após a liquidação do Master e o risco de prejuízo bilionário às aposentadorias do estado. Gonçalves chegou a publicar fotos ao lado de Josiel Alcolumbre, irmão do presidente do Senado.

Em nota, Alcolumbre afirmou que o caso deve ser “devidamente apurado, investigado, esclarecido e conduzido com transparência e respeito ao devido processo legal” e que “os verdadeiros culpados sejam punidos, na forma da lei”.

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