Alerta: Copom admite chance de corte na Selic, mas cenário exige juros altos por mais tempo - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Alerta: Copom admite chance de corte na Selic, mas cenário exige juros altos por mais tempo

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Por Felipe Pontes

PhD em Contabilidade

Na nova ata divulgada nesta terça-feira (3), o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reconheceu melhora nos dados de inflação e avanço gradual na ancoragem das expectativas. Além do mais, pela primeira vez em muito tempo, houve a sinalização de um possível corte na taxa Selic na próxima reunião. Todavia, a sinalização veio com ressalvas: o documento reforça que o ambiente ainda exige juros altos por um período prolongado, principalmente por causa da resiliência do mercado de trabalho e das incertezas fiscais que continuam elevadas.

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Na prática, o Copom voltou a dizer que só poderá cortar juros com segurança se o governo colaborar e não repetir os erros recentes, como aumento de gastos, recuos na meta fiscal e falta de clareza sobre o endividamento público.

Inflação melhora, mas expectativas seguem desancoradas

A ata mostra um diagnóstico mais favorável sobre a inflação corrente. O Bacen reconhece que houve arrefecimento no índice cheio e também nas medidas subjacentes (como núcleos de inflação e serviços), impulsionado por câmbio mais apreciado e queda nas commodities.

Apesar disso, o Comitê foi claro: as expectativas de inflação para 2026 e 2027 seguem acima da meta: 4,0% e 3,8%, respectivamente, quando o centro da meta é 3%. E reforçou que, em cenários de expectativas desancoradas, é necessário manter a Selic em patamar elevado por mais tempo.

“Em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.” — Ata do Copom, fev/2026

Fiscal continua sendo o maior obstáculo à queda dos juros

O Copom manteve o tom crítico em relação à política fiscal. O trecho mais direto afirma que incertezas sobre a dívida pública e o aumento de crédito direcionado podem elevar a taxa de juros neutra da economia, prejudicando a eficácia da política monetária.

“O esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal […] tem o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia.”

Essa avaliação reforça a mensagem do texto anterior, em que destacamos que a postura do governo, ao abandonar metas fiscais e adotar estímulos de curto prazo, força o Banco Central a manter a Selic elevada, mesmo com inflação caindo.

Mercado de trabalho pressiona: desemprego baixo e renda subindo

Outro fator que complica o trabalho do BC é a resiliência do mercado de trabalho. A ata reconhece que a taxa de desemprego segue em patamar historicamente baixo e que os rendimentos reais crescem acima da produtividade, o que pressiona os preços, especialmente nos serviços.

Esse dado é crucial: inflação de serviços responde mais lentamente à política monetária, e o Copom afirma que a desinflação só será duradoura se as pressões salariais forem contidas, o que, mais uma vez, depende de moderação na atividade econômica.

Copom muda o tom: antevê início do ciclo de cortes, mas com cautela

Mesmo com todos os alertas, o Comitê abriu uma janela de oportunidade para começar a cortar juros já na próxima reunião, caso os dados sigam confirmando o cenário atual.

“O Comitê julgou adequado sinalizar o início de um ciclo de redução da taxa de juros em sua próxima reunião.”

Mas a ressalva veio logo em seguida: o ciclo será gradual, condicionado e de magnitude incerta. O Banco Central deixou claro que qualquer corte dependerá da consolidação da desinflação e da ancoragem das expectativas, e isso remete, mais uma vez, ao papel do governo na condução da política fiscal.

O corte é possível, mas não garantido!

A nova ata mostra um Copom mais confiante no combate à inflação, mas ainda refém da credibilidade fiscal e dos efeitos secundários da política econômica do governo. O recado é claro: a queda da Selic pode começar, mas será lenta e não está assegurada. A taxa só cairá de forma mais consistente se houver colaboração real entre política monetária e fiscal, que é algo que o próprio Comitê ainda não vê com clareza.

Em ano de eleição, especialmente, todo o cuidado é pouco!

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