Enquanto Brasil vive sob censura e perseguição judicial, especialistas silenciam diante da ruína institucional
Por Patricia Carlos de Andrade*
No Brasil de 2025, a elite intelectual revela colapso moral e se dissolve entre o silêncio e a vaidade. Diante de um Judiciário sem freios, que censura cidadãos, parlamentares e plataformas digitais, promove perseguições políticas e tolera torturas em presídios, nossos especialistas optam pela omissão. Ignoram os presos de 8 de janeiro, a pauta de anistia e a evidência crescente de que vivemos sob um regime de exceção. Ignoram que, entre 142 países, o Brasil ocupa a 88ª posição no índice de Estado de Direito do Projeto Justiça Mundial.
Essa indiferença é muito mais do que apenas omissão. É cumplicidade.
Economistas, em especial, permanecem fiéis a seus modelos, incapazes de confrontar a erosão democrática em curso. Esquecem que, sem Estado de Direito, não há economia que se sustente. Influenciam o debate público em colunas de jornais como a Folha de S. Paulo, O Globo e Estadão, aparecem regularmente em programas de TV como GloboNews e Jornal Nacional, mas não dizem uma palavra sobre as arbitrariedades jurídicas que corroem as instituições.
Mesmo agora, quando o presidente dos Estados Unidos impôs sanções pessoais a Alexandre de Moraes, fato gravíssimo e inédito na história da diplomacia entre os dois países, os especialistas seguem em silêncio. A carta de Trump ao Brasil, que já denunciava a perseguição judicial a Jair Bolsonaro e o enfraquecimento dos direitos civis de cidadãos brasileiros e americanos, foi tratada como uma anomalia comercial. A sanção direta ao ministro do Supremo, sob a acusação de censura, perseguição política e afronta à liberdade de expressão, tampouco gerou qualquer reação no meio acadêmico ou jornalístico. Como se tudo isso fosse apenas um capítulo bizarro da geopolítica.
Essas tarifas e sanções não são meros instrumentos de barganha. São uma resposta direta à repressão no Brasil, à perseguição judicial e ao ataque frontal à liberdade que atingem empresas, cidadãos e o ambiente democrático. Ignoram acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário e projetam o país para um lugar sombrio no cenário global. Mesmo assim, os especialistas permanecem trancados em sua bolha. Reduzem tudo a inflação, perda de empregos ou realocação de cadeias produtivas. Ignoram o conteúdo da carta de Trump. Ignoram as sanções. Ignoram o alerta.
Observando essa armadilha intelectual, que atinge inclusive amigos e conhecidos meus, me veio à mente G. K. Chesterton, que em Ortodoxia descreve a insanidade não como ausência de razão, mas como excesso dela. O louco, segundo ele, é hiper-racional. Habita um círculo lógico impecável, mas estreito. Explica tudo com perfeição, mas compreende pouco. Exclui o humano, o mistério, o paradoxo e a vastidão da realidade. A mente enlouquecida não perdeu a lógica mas perdeu tudo o mais.
É o retrato da nossa elite. Incapaz de enxergar além da planilha, ela transforma a política em transação, a moral em abstração, a liberdade em custo secundário. A carta de Trump e as sanções a Moraes, dentro dessa lógica, não passam de distorções a serem corrigidas e não de denúncias a serem ouvidas. A racionalidade se deforma. A expertise se esteriliza. A lógica se torna autista diante do sofrimento real e da degradação das instituições.
Chesterton via nisso uma paródia da razão. A mente que se fecha em si mesma, como a serpente que devora a própria cauda. A elite brasileira corre esse risco. Repetem diagnósticos frios enquanto o país mergulha num regime autoritário. Ignoram que as sanções mostram, de forma inequívoca, para o mundo todo, que tarifas podem proteger não apenas mercados, mas princípios. Que segurança nacional também é resposta moral. Que a economia não se basta a si mesma.
O Brasil não precisa de mais tecnocratas inertes. Precisa de intelectuais corajosos, capazes de nomear o óbvio, de sair da bolha, de entender que estamos diante de um processo de degeneração que é institucional, mas também espiritual. Persistir nesse torpor lógico, após a carta, após as tarifas, após as sanções pessoais a um ministro da Suprema Corte, é pactuar com a destruição.
E quando ela vier, ninguém, nem mesmo os mais vaidosos dos meus colegas, estará a salvo.
* Patrícia Carlos de Andrade é fundadora do Instituto Millenium
