STF impõe sigilo máximo em investigação sobre vazamento de dados
Brasília, Quinta, 04 de junho de 2026
Justiça

STF impõe sigilo máximo em investigação sobre vazamento de dados

Processo envolvendo dados fiscais de ministros é classificado como nível 4 e restringe acesso até a defesa

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Foto: Fellipe Sampaio /STF

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

O processo que investiga o vazamento ilegal de dados fiscais de ministros do STF, autoridades e pessoas públicas recebeu o nível de sigilo máximo na corte.

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De acordo com o Supremo, o nível 4 de sigilo — numa escala que começa em 0, para processos públicos — se deve à existência “de informações sensíveis da Receita Federal e Coaf”.

A classificação impede até a identificação oficial do relator no sistema do tribunal. No caso, o processo é conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes.

Os níveis de sigilo estão previstos na resolução 878/2025. Apenas no nível 4 o nome do relator não aparece na consulta pública. O STF não informou quantos processos já receberam essa classificação.

Especialistas apontam que o sigilo pode ser adotado, mas questionam a restrição de acesso da defesa às decisões. O advogado Eric Cwajgenbaum, que representa o contador Washington Travassos de Azevedo, afirma que não teve acesso às decisões judiciais que resultaram em medidas contra o cliente.

O contador foi alvo de busca e apreensão em 2 de março, passou a usar tornozeleira eletrônica no dia 6 e foi preso no dia 13. Até o momento, segundo a defesa, não houve acesso aos fundamentos das decisões.

“Uma semana se passou sem que nenhum requerimento de acesso tenha sido respondido. O gabinete do ministro informou por email que não há disponibilidade de data para despachar e nem mesmo a decisão que decretou a prisão preventiva foi exibida. Já se vão quase três semanas sem que os meus requerimentos fossem sequer apreciados. O caso é grave. As violações de prerrogativas são muitas”, afirmou.

O STF não comentou a limitação de acesso. A resolução prevê que o relator pode autorizar advogados a consultarem partes específicas do processo.

A advogada Tatiana Stoco afirmou que não é comum manter sob sigilo uma decisão de prisão. Segundo ela, a defesa deve ter acesso ao conteúdo. “A defesa tem que ter acesso, pelo menos, à decisão que decretou a prisão. Agora, sendo isso na instância do STF, não vejo para onde essa defesa poderá recorrer, se não dentro do próprio STF, para tentar alegar a ilegalidade e tentar uma soltura”, disse.

O advogado Fernando Castelo Branco também criticou a condução do caso. Para ele, a investigação não deveria tramitar no STF e questionou a atuação do relator. “Por que o Supremo Tribunal Federal é a instância judicial competente para apurar esses fatos? Não é, seria a Justiça Federal. Uma das vítimas é a esposa do ministro Alexandre de Moraes. Ele é indiretamente uma vítima desses vazamentos, e ele está se colocando na condição de investigador e de autoridade para decretar as prisões. É um desatino”, afirmou.

A investigação começou após determinação para que a Receita Federal verificasse acessos a dados fiscais de cerca de cem pessoas, incluindo ministros do STF e familiares. O órgão identificou acessos considerados irregulares.

A apuração resultou em operações contra suspeitos. Além da prisão do contador, seis pessoas foram alvo de busca e apreensão e passaram a usar tornozeleira eletrônica. Entre os investigados estão servidor do Serpro, técnicos e um vigilante da Receita Federal.

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