Governo alega que tirou 17 milhões da pobreza em dois anos, mas pobreza real continua estagnada - Claudio Dantas
Brasília, Domingo, 07 de junho de 2026
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Governo alega que tirou 17 milhões da pobreza em dois anos, mas pobreza real continua estagnada

Mulheres ciganas vivem em situação de miséria nos arredores de Sousa, na Paraíba. Foto: Danielle Pereira/Wikimedia Commons
Mulheres ciganas vivem em situação de miséria nos arredores de Sousa, na Paraíba. Foto: Danielle Pereira/Wikimedia Commons

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Na semana passada, o governo federal fez alarde com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que teria registrado que 17,4 milhões de pessoas saíram da pobreza “em apenas dois anos”.

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Se for verdade da forma como foi apresentada, esta coluna precisaria dar o braço a torcer e aplaudir. Mas, como já somos macacos velhos por aqui, e temos observado muito bem que as apostas do governo Lula 3 para a economia são ainda mais Estado, mais impostos e mais retórica de luta de classes, é evidente que ficamos céticos.

Não precisamos duvidar da idoneidade do estudo da FGV. O que Marcelo Neri, autor do estudo, mostrou com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-C), do IBGE, foi que houve um aumento de 8,44 pontos percentuais, entre 2022 e 2024, no grupo das pessoas que integram o segmento das classes ABC, isto é, o grupo com renda domiciliar total entre R$ 2.525,00 por mês e R$ 14.191,00 (ou mais).

Ou seja, a manobra da propaganda do governo é tratar “pobreza” como sinônimo de classes D e E, que ganham entre zero e R$ 2.525,00 por mês e, de fato, encolheram no período. Na prática, enquanto a FGV está medindo o movimento entre faixas de renda sem acompanhar indivíduos específicos, o governo está usando os fatos para narrar outra coisa a respeito da pobreza. E há outros enquadramentos convenientes.

A nota do governo sobre o estudo da FGV, aliás, tem um trecho esquisitíssimo: “a parcela da população nas classes A, B e C cresceu 8,44 pontos percentuais, sendo 13 a 14 pontos percentuais representados por quem recebe o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC)”. Essa conta não fecha do jeito que está escrita.

Nery: pobreza “real” tem caído pouco

Conversei com o economista Pedro Fernando Nery, autor do livro “Extremos” (Zahar, 2024) e professor do IDP, para entender mais.

O próprio IBGE, explica Nery, segue o padrão internacional do Banco Mundial para definir o que seria a linha da pobreza (R$ 694,00 mensais) e da extrema pobreza (R$ 218,00 mensais — valores de 2024).

As estatísticas de 2023 são deprimentes. Por esses critérios, 27,5% dos brasileiros são pobres e 4,4% são extremamente pobres. No Chile, país que há mais tempo aposta na liberdade econômica na América do Sul, somente 5% são pobres, pelo mesmo critério.

O estudo da FGV está correto em apontar que mais gente entrou para faixas de renda mais associadas à “classe média” entre 2022 e 2024, mas “nossas linhas são muito baixas”, informa Nery.

“Se botar a linha de pobreza dos EUA ou da Europa, mesmo considerando diferenças no poder de compra, teremos boa parte da população brasileira na pobreza e quase ninguém subindo para a classe média”, diz Nery.

Outro ponto em que o IBGE tem feito seu trabalho, comenta o economista, é divulgar as linhas de pobreza no Brasil com e sem os benefícios de programas como o Bolsa Família. Parte do ponto é mostrar a importância dos programas de assistência, mas a linha calculada para a pobreza sem benefícios serve como um marcador da “pobreza real”.

Pobreza no Brasil: estagnação na maior parte da história recente, seguida de queda modesta

O que se vê no gráfico do IBGE para as linhas da pobreza e da extrema pobreza entre 2012 e 2024 serve melhor para avaliar o modelo de gestão do governo federal no estilo petista neste período interrompido apenas pelos quatro anos de Jair Bolsonaro no poder. O padrão predominante que se pode observar tem um nome claro: estagnação.

Na maior parte do período, as linhas com e sem benefícios permaneceram praticamente juntas, o que nos leva a questionar a eficácia do Bolsa Família como mecanismo de ascensão social.

Curiosamente, foi no início do governo Bolsonaro que a diferença entre pobres com benefícios e sem benefícios começou a se alargar e crescer em importância, de forma que atualmente, sem Bolsa Família, teríamos o dobro de brasileiros na pobreza extrema.

Sim, a tendência tem sido de queda, especialmente após um pico de pobreza e extrema pobreza em 2021, claramente por causa da pandemia e das medidas para conter a Covid-19.

A queda na pobreza desde o ápice pandêmico, que pode ser explicada tanto por recuperação pós-Covid quanto por políticas econômicas, inclui o final do governo Bolsonaro.

Então, se o governo Lula 3 quer reivindicar crédito pela tendência de queda na pobreza desde 2022, vai ter que partilhar o crédito com seu nêmesis, que está preso na Papudinha.

Um fato merece ser observado: nas estimativas do IBGE, os extremamente pobres sem benefícios sociais seriam 9,5% da população em 2012 e 10% em 2024. Alguém pode dizer que isso parece um grande progresso?

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