Ninguém sabe com certeza de onde veio o SARS-CoV-2, vírus da doença pandêmica COVID-19. Mas é eminentemente plausível a hipótese de que ele escapuliu de um laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan.
Também é plausível que tenha resultado de experimentos realizados ali, em que linhagens de coronavírus de morcegos eram selecionadas e modificadas para ficarem cada vez mais capazes de infectar células humanas ou roedores geneticamente modificados para apresentar receptores humanos em seus pulmões.
Sabemos, também, que esses experimentos — conhecidos como experimentos de “ganho de função” — provavelmente foram feitos em condições inadequadas de biossegurança, conforme os padrões internacionais.
Em linhas gerais, essa é a hipótese favorecida hoje pela inteligência americana e pela inteligência alemã — a última dá 95% de certeza para a ideia.
Apesar de tudo isso, a China, importante celeiro de produção econômica global, não sofreu sanção nenhuma pela negligência de seus pesquisadores. Pior: de acordo com um artigo publicado no dia 19, os experimentos continuam.
Revista ocidental publica novos resultados de ganho de função feitos por chineses
A publicação apareceu no Journal of Virology, periódico da Sociedade Americana de Microbiologia, e tem 12 autores chineses. O título traduzido é “Vírus da síndrome de diarreia aguda suína relacionados aos coronavírus de morcegos mostram infecção potencial interespécies”.
O vírus de diarreia em porcos é conhecido pela sigla SADSr-CoV. Os autores dizem que o modificaram geneticamente nove vezes para substituir o gene relacionado à proteína de superfície (proteína de espícula ou proteína S) por sua contraparte encontrada em coronavírus de morcegos.
Os coronavírus modificados do estudo “puderam se replicar eficientemente em linhagens celulares respiratórias e intestinais em organoides derivados de humanos e de suínos”. Os cientistas também afirmam que “esses SADSr-CoVs podem potencialmente infectar tanto os tratos respiratórios e intestinais de porcos quanto os de humanos”.
As afiliações dos 12 autores sugerem que os trabalhos de ganho de função foram migrados para a cidade de Cantão (Guangzhou), a 980 km de Wuhan.
Padrões internacionais de biossegurança estabelecem quatro níveis de proteção que vão de BSL-1 (mais relaxado) a BSL-4 (mais estrito), a depender do perigo representado pelo material biológico sob teste. A manipulação de coronavírus no Instituto de Virologia de Wuhan era feita no nível claramente inadequado BSL-2, que exige apenas coifas ventiladas, máscaras cirúrgicas e jalecos. É como o nível de biossegurança de um consultório odontológico.
O novo artigo diz que os experimentos de ganho de função em Cantão “foram realizados em um laboratório com nível de biossegurança 2 (BSL-2), com aprovação dos comitês institucionais de biossegurança e seguindo a regulação de biossegurança do país”. Além disso, “todos os experimentos em animais foram realizados em um espaço animal BSL-2”.
Nomes familiares de Wuhan nos agradecimentos
Em outras palavras, os virologistas da China continuam com o mesmo nível de negligência que potencialmente criou a pandemia de Covid-19, com custo de cerca de 20 milhões de vidas humanas.
Comentando o estudo nas redes sociais, Richard Ebright, bioquímico americano especializado em segurança laboratorial, considerou a pesquisa “perigosa”, com “proteções de biossegurança grosseiramente inadequadas”. Ebright observou que o estudo também afirma que os coronavírus geneticamente modificados criados “mostram um incremento de 10 mil vezes de crescimento viral no cérebro”.
No final do artigo, os autores agradecem a uma série de outros cientistas “por suas contribuições importantes para este estudo”. Entre eles estão Ben Hu — um dos três cientistas que a inteligência americana suspeita estarem entre os primeiros infectados com a Covid nos laboratórios de Wuhan — e Zheng-Li Shi (cujo nome também é grafado Shi Zhengli na imprensa ocidental), líder do Centro de Doenças Infecciosas Emergentes do Instituto de Virologia de Wuhan.
