BBC fez edição desonesta de Trump ‘incitando’ invasão do Capitólio, diz denúncia interna - Claudio Dantas
Brasília, Segunda, 20 de julho de 2026
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BBC fez edição desonesta de Trump ‘incitando’ invasão do Capitólio, diz denúncia interna

Em um dos cadernos, havia descrições sobre como entrar ilegalmente nos Estados Unidos, com um roteiro que começava pela Guatemala.
Em um dos cadernos, havia descrições sobre como entrar ilegalmente nos Estados Unidos, com um roteiro que começava pela Guatemala. Foto: Paweł Kula, Sejm RP

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Assim como a imprensa brasileira alinhada com o governo dizia “golpe” em vez de “suposto golpe” antes mesmo da condenação de Jair Bolsonaro e demais acusados pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, a imprensa anglófona alérgica à direita nacionalista tem dado certeza que Donald Trump incitou a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

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Nesta segunda-feira (3), o jornal britânico The Telegraph validou essa observação: a BBC, cujo orçamento depende em dois terços de uma taxa que o governo do Reino Unido impõe a todos os lares com TV, teria “alterado” as imagens de um discurso de Donald Trump para validar a acusação de incitação.

A fonte do jornal é um dossiê interno de denúncia que vazou da BBC. A denúncia diz que os espectadores do canal estatal foram “completamente induzidos ao erro” com imagens de Trump dizendo a seus apoiadores que caminharia com eles até o Capitólio (sede do Congresso dos EUA) para “lutar com todas as forças” (fight like hell).

Foi uma edição desonesta, diz o delator da BBC. Na verdade, no fim da frase ele tinha dito que caminharia com seus eleitores “de forma pacífica e patriótica para que suas vozes sejam ouvidas”.

Do jeito que as imagens foram montadas e exibidas em 2021 no Panorama, série documental de horário nobre da emissora, um trecho do discurso de Trump foi justaposto a outro trecho com distância de quase uma hora no discurso completo. O efeito disso foi fabricar uma incitação à violência. Assim, ficou parecendo que Trump “‘disse’ coisas que na verdade ele nunca disse”, afirma o dossiê.

Essa é uma das denúncias contidas no texto de 19 páginas dedicado a documentar o viés político da British Broadcasting Corporation (BBC), uma emissora com renome internacional que foi fundada há 103 anos, na era do rádio, pelo governo britânico.

The Telegraph manteve o autor do dossiê anônimo, mas detalhou que seria uma pessoa que se tornou membro recentemente do comitê de padrões da corporação “e agora circula por departamentos do governo”.

O filho do presidente americano, Donald Trump Jr., reagiu às revelações na rede social X: “Os ‘repórteres’ de fake news do Reino Unido são tão desonestos quanto os americanos”.

O ex-primeiro-ministro conservador Boris Johnson, que já foi muito comparado a Trump no Reino Unido, também comentou o caso. “É uma vergonha”, disse Johnson no X. “É a emissora nacional da Grã-Bretanha usando um programa de horário nobre para espalhar inverdades palpáveis sobre nosso aliado mais próximo. Alguém na BBC vai assumir a responsabilidade e se demitir?”

Outro político britânico comparado a Trump recorrentemente é Nigel Farage, um dos principais responsáveis por campanhas que levaram o Reino Unido a sair da União Europeia (Brexit). “Não é à toa que cada vez menos pessoas estão pagando pela taxa da BBC ano a ano”, Farage comentou sobre a denúncia.

Quase dois terços dos britânicos querem parar de financiar a BBC

Francamente, a denúncia não vem como grande surpresa para quem não se alinha com a esquerda e acompanha política internacional. Se há alguma surpresa, é pelo nível de ousadia com dinheiro público a que se permitiram os funcionários da BBC.

A emissora britânica precisou pedir desculpas no primeiro trimestre deste ano por ter exibido um documentário completamente parcial sobre a guerra em Gaza, cujo narrador era filho de um líder do grupo terrorista Hamas. Ou seja, em meio a uma guerra, o veículo de comunicação estatal britânico produziu propaganda para um dos lados e foi pego no ato — a denúncia, daquela vez, veio de fora.

O instituto de pesquisa YouGov acompanha desde 2019 a popularidade da taxa de TV que financia a corporação britânica. O imposto permaneceu impopular em todo o período, com a insatisfação crescendo paulatinamente. Os britânicos que consideram a taxa “muito injusta” cresceram de 37% em julho de 2019 para 46% em setembro de 2025. Somando-se aos que consideram “injusta”, os insatisfeitos já são 63% do público. Os que consideram “justa” ou “muito justa” são 18%.

São, portanto, quase dois terços dos britânicos que querem fechar a torneira para a BBC. A sorte da emissora é que o governo atual é do Partido Trabalhista, que simpatiza com seu viés político.

Revista Newsweek também publicou alegação contra Trump

Um mês após a invasão do Capitólio, a revista americana Newsweek publicou um artigo de opinião dos analistas David Beaver e Jason Stanley com o título “Trump incitou violência? Para estudiosos da propaganda, há uma montanha de provas”.

Na época, examinei o artigo e as falas de Trump em que os autores se basearam. Eles não tinham nenhuma incitação clara e inequívoca feita por Trump, seja à violência em geral, seja especificamente à invasão.

Na falta da “montanha de provas” alegada no título, Beaver e Stanley compararam falas vagas de Trump ao gesto que os imperadores romanos faziam com o polegar para decidir se gladiadores teriam ou não suas vidas poupadas. No fim das contas, para poder acusar Trump de ter incitado violência, os autores chegam muito perto de presumir que conseguem ler a mente do político.

Embora os autores do artigo não usem esse termo, a tese que apresentam é a do “apito de cachorro”, muito usada pelos progressistas nos últimos anos para passar um verniz de respeitabilidade em suas teorias da conspiração. Por exemplo, quando acusaram o ex-assessor internacional de Bolsonaro, Filipe Martins (agora um injustiçado por Alexandre de Moraes), de ser “neonazista” por fazer um suposto gesto de “OK” com a mão ao ajustar seu paletó. Ou quando acusaram Bolsonaro de aderência à mesma ideologia por aparecer em uma live com um copo de leite.

O filósofo analítico Donald Davidson é conhecido por ter proposto de forma mais explícita o princípio da caridade interpretativa, usado pelos filósofos desde a Grécia clássica. O princípio consiste em interpretar da forma mais generosa possível o que é dito por adversários em debates, de forma a melhorar crenças e afirmações até suas versões mais racionais e verdadeiras possíveis. Assim, critica-se a versão mais forte possível de uma opinião, em vez de fazer dela um espantalho.

O que a alegada manipulação da BBC e o artigo da Newsweek mostram é que o establishment progressista internacional pratica um outro princípio contra aqueles movimentos políticos que enxerga como adversários: o sadismo interpretativo. Tudo o que nacionalistas, conservadores, libertários, liberais etc. disserem será interpretado da pior forma possível, para prejudicá-los.

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