BBC reconhece erro de publicar filme narrado por filho de membro do Hamas - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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BBC reconhece erro de publicar filme narrado por filho de membro do Hamas

Diretores da BBC renunciam após escândalo sobre edição de fala de Donald Trump em documentário exibido antes das eleições de 2024. Crédito: Sebastiandoe5/Wikimedia Commons
Crédito: Sebastiandoe5/Wikimedia Commons

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

A BBC, empresa de comunicação britânica sustentada em parte por impostos, emitiu na quinta-feira (27) um pedido de desculpas por ter publicado o documentário “Gaza: como sobreviver numa zona de guerra”.

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O filme foi ao ar nos canais da emissora dez dias antes, mas foi removido do aplicativo da BBC, pendendo sindicância, no dia 21, depois que um investigador independente mostrou que o narrador de 13 anos — um dos quatro jovens palestinos tratados como protagonistas — é filho de um vice-ministro do regime do grupo terrorista Hamas.

A diretoria da BBC reconheceu, em comunicado, que havia “sérios defeitos” na produção do programa. “A BBC News se responsabiliza completamente por isso e pelo impacto que teve na reputação da corporação. Pedimos desculpas”.

A empresa disse que a intenção do documentário era alinhada com seus propósitos de “contar a história do que está acontecendo ao redor do mundo, mesmo nos lugares mais difíceis e perigosos”, mas “os processos e execução desse programa ficaram aquém das nossas expectativas”.

A BBC tem responsabilidade editorial pelo filme, mas mencionou ter contratado a produtora independente Hoyo Films para as filmagens.

“Uma das principais questões está em torno das conexões de família do menino que é o narrador do filme”, diz a nota. Durante o processo de produção, a BBC perguntou por escrito múltiplas vezes à produtora independente a respeito de conexões em potencial que o menino e sua família poderiam ter com o Hamas.

Só depois de o documentário ir ao ar, a Hoyo Films informou à BBC que sabia que o pai do menino era um vice-ministro da Agricultura no governo do Hamas. A produtora também se viu obrigada a reconhecer que falhou em contar este fato à BBC. “Foi, portanto, uma falha da própria BBC que não tenhamos descoberto esse fato e que o documentário tenha sido transmitido”, continua a emissora.

O Hamas recebeu dinheiro da BBC? É possível que sim, ao menos de forma indireta. A produtora passou o dinheiro dos britânicos à mãe do menino através da conta bancária de sua irmã, como pagamento pela narração. “A BBC está buscando garantia adicional [de que o Hamas não ganhou seu dinheiro] do orçamento do programa e fará uma auditoria completa dos gastos”.

O diretor-geral da BBC, Tim Davie, pediu prioridade para reclamações dos telespectadores a respeito do documentário enviados a uma ouvidoria independente da BBC News. O ouvidor-chefe, Peter Johnston, analisará as queixas e determinará se o filme violou as diretrizes editoriais e se cabem punições aos produtores internos envolvidos. “Isso incluirá problemas a respeito do uso de linguagem e da tradução” — o documentário traduziu “yehud” (judeu em árabe) para “israelense”, numa provável tentativa de mascarar o antissemitismo dos entrevistados.

A mesa diretora emitiu uma declaração oficial em que diz que os erros do documentário “são importantes e danosos à BBC”. O documentário permanecerá fora do ar até que a sindicância interna seja concluída.

David Collier, o jornalista investigativo independente que revelou os problemas do documentário, comemorou o comunicado no X. “Aquelas 500 personalidades da mídia que queriam manter o filme no ar com certeza estão com cara de idiotas agora”, disse ele.

Collier se refere a uma carta aberta contra a retirada do documentário do aplicativo da BBC, que a própria emissora noticiou. O grupo de signatários chamou a si mesmo de “Artistas britânicos pela Palestina” e alegou na carta que havia uma campanha “racista” e “desumanizante” contra o filme.

Collier considerou que a cobertura da carta pela BBC News foi uma afronta direta aos que denunciaram a natureza propagandística do programa a favor do Hamas. “Não caiam nessa de pensar que isso diz respeito a apenas um documentário. Ele é produto de um problema sistêmico dentro da BBC News”, disse o jornalista. “Eles têm produzido propaganda para o Hamas há anos. A única diferença é que, desta vez, nós provamos”.

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