Pelo menos 19 pessoas morreram em duas cidades do Nepal durante os protestos que se iniciaram ontem (8), segundo informações das agências Reuters e ANI (South’s Asia Leading Multimedia News Agency). Em Katmandu, a polícia lançou gás lacrimogêneo e disparou balas de borracha contra manifestantes que tentaram invadir o Parlamento, em reação ao bloqueio de redes sociais e à corrupção.
Manifestantes — em sua maioria jovens — invadiram o complexo do Parlamento, incendiaram uma ambulância e arremessaram objetos contra fileiras de choque. “A polícia está atirando indiscriminadamente”, disse um manifestante à agência ANI. “(Eles) dispararam balas que erraram o alvo e atingiram um amigo que estava atrás de mim. Ele foi atingido na mão.”
Mais de 100 pessoas ficaram feridas, entre elas 28 policiais, afirmou à Reuters o policial Shekhar Khanal.
A escalada veio após decisão do governo, na semana passada, de bloquear o acesso a várias plataformas, inclusive o Facebook, por falta de registro das empresas no país e em meio a uma repressão a contas falsas, discurso de ódio, notícias falsas e fraudes. Cerca de 90% dos 30 milhões de nepaleses usam a internet.
Primeiro-Ministro do Nepal renuncia em meio aos protestos
A crise política se aprofundou com a renúncia do ministro do Interior, Ramesh Lekhak, que assumiu “responsabilidade moral” pela violência, disse à Reuters um ministro do governo sob anonimato. O primeiro-ministro K.P. Sharma Oli convocou reunião de emergência do gabinete. Nas ruas, os organizadores classificaram os atos como manifestações da “Geração Z”, com cartazes como “Fechem a corrupção, não as redes sociais” e “Desbloqueiem as redes sociais”.
Segundo Muktiram Rijal, porta-voz do gabinete distrital de Katmandu, a polícia foi autorizada a usar canhões de água, cassetetes e balas de borracha para dispersar a multidão, e o Exército foi mobilizado na área do Parlamento. Houve atos também em Biratnagar, Bharatpur e Pokhara. Os ataques diminuíram no início da noite, mas grupos permaneceram no local.
A corrupção é amplamente percebida como endêmica no Nepal, e o governo Oli é cobrado por não entregar resultados no combate ao problema e na geração de oportunidades econômicas. O ex-secretário de Finanças Rameshwore Khanal avaliou que, embora a criação de empregos não acompanhe as expectativas, a ira popular decorre sobretudo do descontentamento com nomeações governamentais e com a incapacidade de erradicar a corrupção. O governo afirma que a economia vinha em recuperação graças a medidas corretivas.
O país vive instabilidade desde o fim da monarquia, em 2008: foram 14 governos, nenhum com mandato completo. Oli, 73, assumiu o quarto mandato no ano passado. Todos os anos, milhares de jovens deixam o Nepal para trabalhar e estudar no exterior.
O bloqueio às plataformas ocorre enquanto governos autoritários em todo o mundo apertam a regulação de Big Techs, citando desinformação, privacidade, danos on-line e segurança nacional. Críticos alertam para riscos à liberdade de expressão, enquanto reguladores defendem controles mais rígidos para proteger usuários e preservar a ordem social.
