A decisão da Federação União Progressista — parte importante do Centrão — de desembarcar do governo Lula é o que os geólogos classificariam como um movimento tectônico, daqueles que produzem tsunamis e vulcões. Na política, normalmente produzem impeachment. No momento atual, tem potencial para produzir anistia.
Em conversa mais cedo, o deputado Fábio Schiochet (União/SC) comemorou o desembarque, ainda que tardio; destacou o potencial de votos para aprovar a principal pauta da direita — a única capaz de pacificar o país — e ainda exaltou a necessária união de forças para vencer o PT em 2026.
Segundo ele, “o que a gente vive agora é um divisor de águas”. “A eleição de 2026 será a mais importante da história, não só da redemocratização, mas da história do país”, diz.
A questão que se coloca, porém, é ainda mais urgente: sem uma união real de esforços para a execução de medidas que restrinjam o poder exacerbado do Judiciário, dificilmente teremos uma eleição livre e democrática no ano que vem. Basta olhar para 2022, quando apoiadores de Jair Bolsonaro foram censurados, banidos ou presos.
Basta olhar para o que está acontecendo agora, com o Supremo inviabilizando, não só a principal liderança popular do país, mas todos aqueles nomes da direita que possam representar uma “ameaça” para o sistema, especialmente na eleição para o Senado, pelo medo de um futuro processo de impeachment.
No caso do Centrão, o objetivo é menos óbvio, envolvendo uma estratégia de garrote para forçar o apoio de lideranças e partidos influentes e endinheirados a candidatos da esquerda. Basta notar como Flávio Dino conduz as investigações sobre o uso de emendas parlamentares.
Dino se aproveita do fisiologismo, como Moraes se aproveitou do confronto ideológico. Se bolsonaristas eram provocados a subir o tom, para depois serem colhidos no inquérito das fake news por “discurso de ódio”; a turma mais faminta do Centrão morde a isca de cargos e emendas.
Todos terão o mesmo fim, a menos que se associem e se unam às ruas, de onde emana aquele velho e irrefreável poder popular. Perder o medo da Juristocracia é o primeiro grande passo para virar o jogo e desmantelar o que o cientista político Paulo Kramer classificou como “sinistro condomínio que nos governa”.
“O que os políticos de centro e centro-direita temem é uma Polícia Federal que virou ‘guarda pretoriana’ do ministro Alexandre de Moraes. Agora, esses políticos percebem que o amplo respaldo popular às pautas da direita reflete os limites da capacidade de intimidação de Moraes, Dino e cia”, diz Kramer.
A história ensina que os poderosos só temem ruas cheias. Quanto mais alinhado o Parlamento estiver com as aspirações populares, menor será a capacidade do regime de aterrorizá-lo. Mais cedo, na conversa com Schiochet, sugeri que seus colegas de centro e Centrão vistam a camisa verde e amarela e saiam às ruas no 7 de setembro pela anistia.
Uma anistia ampla, geral e irrestrita. Afinal, o Centrão precisa da Direita e a Direita precisa do Centrão. E ambos precisam do povo. É uma questão de sobrevivência… da própria democracia.