“Não é razoável que 1% da população faça esse inferno na internet dizendo que nós estamos colocando ‘nós contra eles’”, disse hoje Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista ao portal Metrópoles.
“Se eles pagassem pelo menos o que nós pagamos — [nós] os 99% — estava de boa. Mas não, esse 1% não quer pagar nem o que os 99% pagam”.
Foi assim que Haddad se incluiu entre os 99% mais pobres do país. Mas não é verdade.
Segundo o próprio governo federal, o salário de ministros de Estado como Haddad é de R$ 46.366,19 por mês. É o mesmo valor recebido pelo presidente e pelo vice-presidente da República.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE, a renda média por domicílio da fração dos 1% mais ricos do país foi de R$ 20.664 em 2023. Portanto, Haddad ganha mais do que o dobro dos 1% mais ricos — ele está entre os 0,5% mais ricos.
Mas isso não é tudo. Haddad está desde 28 de maio de 2024 no Conselho de Administração da Itaipu Binacional. Para isso, ele recebe mais R$ 27 mil por mês, segundo o Poder360. Logo, a verdadeira renda mensal de Haddad é de R$ 73,4 mil.
Pode ser ainda mais, já que a informação sobre pagamentos de Itaipu é de 2023, quando a empresa disse ao Poder360 que a ela “não se aplica a Lei de Acesso à Informação”, e Haddad se recusou a comentar.
É bem possível que Haddad esteja, na verdade, entre os 0,1% mais ricos do país. Grande parte de sua renda tem origem em impostos. Em 2022, o ministro declarou à Justiça eleitoral um patrimônio de R$ 595 mil. É quase seis vezes mais que o patrimônio médio do Distrito Federal, o maior do país, segundo o Mapa da Riqueza no Brasil da Fundação Getúlio Vargas (2023).
O Brasil é uma anomalia de diferença salarial entre funcionários públicos e do setor privado
Em diferentes levantamentos, a média salarial dos funcionários públicos no Brasil é em torno do dobro da média salarial de quem trabalha no setor privado, que sustenta os primeiros.
A diferença era de 84% em 2015, segundo o IBGE. Só perdemos para o México, com diferença de 210% (fonte: INEGI). A diferença é menor na Coreia do Sul (56%; fonte KOSTAT), Chile (52%; INE-Chile), Portugal (51%; INE-Portugal), Japão (47%; Autoridade Nacional de Pessoal), Espanha (42%; INE-Espanha), Estados Unidos (23%; BLS) e Alemanha (2%, Destatis). Na França, diferentemente dos outros países mencionados, a média salarial do setor privado é superior à dos funcionários públicos, com uma diferença de 7% (INSEE, 2024).
Na entrevista do Metrópoles, Haddad insistiu na retórica de luta de classes adotada pelo governo. A estatística específica de 1% parece diretamente importada do movimento Occupy Wall Street, dos Estados Unidos, uma ocupação do Parque Zuccotti feita pela esquerda progressista universitária em 2011. Foi ali que surgiu na prática a agenda woke, a lacração. E Haddad também adere à lacração, alegando que a retórica de seu governo contra os ricos tem algo a ver com reparação histórica para os negros.
A retórica de Lula e Haddad, claro, não traça nenhuma diferença entre ricos como eles, cuja renda e patrimônio vêm de dinheiro tomado à força dos outros, daqueles ricos cuja renda vem de trocas voluntárias com clientes.
Enquanto isso, Javier Milei adota outras ideias mais amigas da liberdade e reduz a pobreza na Argentina. Aí está a real luta de classes: a classe dos parasitas contra a classe dos produtivos.
