Muitos amigos e colegas que não militam na área do direito perguntam: pode o Poder Judiciário imiscuir-se nos demais Poderes, como temos visto atualmente? A resposta não é simples até para aqueles que possuem formação jurídica. Vou tentar explicar de maneira bem didática.
O Brasil é uma federação. Por esse modelo, adotado pela maioria dos países democráticos, a União é o poder central e possui soberania, que pode ser resumida de forma bem simples como o poder de criar e aplicar o próprio direito. Os Estados, entes federativos, junto com os municípios, possuem autonomia, que é regulada pela Constituição Federal.
Na federação, os Estados pactuam que se submeterão ao poder central, que será responsável, dentre outras hipóteses, pela política externa, defesa do país e elaboração de legislação penal civil e processual, que valerá para todo território nacional. É o denominado pacto federativo.
O pacto não pode mais ser desfeito. Os Estados perdem a soberania, mas mantém a autonomia, podendo legislar sobre determinadas matérias que impliquem interesse regional e os municípios sobre assuntos locais.
A autonomia dos Estados pressupõe democracia. Quanto mais sólida a democracia, maior autonomia possuem os entes federados. E a recíproca é verdadeira. No regime totalitário os entes federados não possuem autonomia ou ela é muito limitada. O poder é centralizado na União. Os entes federados são mera divisão administrativa.
Outro pressuposto para o federalismo é a tripartição de Poderes.
Na célebre definição de Montesquieu, o Poder Executivo é responsável por administrar o Estado, o Legislativo por criar as leis e o Judiciário por aplicar o direito, de modo que sejam independentes e harmônicos entre si. Essa repartição de poderes está presente em todos os países democráticos.
A nossa Constituição Federal, bem como a maioria das cartas constitucionais de todo o mundo, traz como princípio basilar a interdependência dos poderes. Não se trata de independência absoluta, já que um Poder deve fiscalizar e limitar o outro com algo que se denomina de sistema de freios e contrapesos. Do contrário, poder absoluto poderia levar à ditadura.
Assim, o Poder Judiciário pode analisar e anular atos do Poder Executivo e do Legislativo no que tange à legalidade, no mais das vezes quanto à forma. Excepcionalmente, também é possível a análise e anulação quanto ao conteúdo, quando houver desvio de finalidade, ou seja, quando o ato aparentemente é legal, mas traz em seu bojo uma finalidade ilegal ou imoral, de forma dissimulada.
Essa análise realizada pelo Poder Judiciário não é fácil, posto que não é possível ingressar na esfera discricionária do Poder Público, já que a administração e a forma como ela dar-se-á incumbe ao chefe do Poder Executivo em todas suas esferas.
Ao Judiciário também incumbe analisar a constitucionalidade de leis e atos normativos em geral em face da Constituição Federal e, também, das Estaduais. Neste caso, a situação é muito mais simples, haja vista ser um julgamento meramente objetivo, pelo menos em regra.
Infelizmente, mesmo com determinação constitucional expressa que impõe a separação dos Poderes da República (art. 2º, da CF), tornou-se lugar comum o Judiciário, por meio do Supremo Tribunal Federal, invadir esfera de competência reservada ao Legislativo, ao criar ou alterar o teor de normas jurídicas, e, também, do Executivo, ao impor obrigações e determinar inações, cuja análise de pertinência é reservada ao chefe do respectivo Poder, seja na esfera federal ou estadual, o que ocorreu sobremaneira no governo anterior, mas no atual ainda não, pelo contrário, havendo tentativa desta gestão de influir no Legislativo por meio da Suprema Corte, algo inusitado e surreal, estranho a qualquer democracia do planeta, embora comum em regimes ditatoriais, tendo como exemplo a Venezuela.
Todas as vezes que há indevida e excessiva ingerência do Poder Judiciário no Executivo cria-se uma crise institucional, já que o plano de governo é alterado e isso pode ocasionar sérios problemas na administração pública.
O mesmo ocorre quando o Judiciário se arvora em legislador, criando leis ou alterando seu conteúdo, mediante interpretações extremamente abertas, o que a doutrina denomina de ativismo judicial, que é mais fortemente percebido quando a interferência se dá nas Casas Legislativas.
O regime democrático de direito pressupõe Instituições fortes, mas que se respeitem mutuamente, não interferindo um Poder em outro, ao não ser naqueles casos expressamente previstos na Constituição Federal, como ocorre com as ações diretas de inconstitucionalidade por omissão, mandados de injunção, sustação de ações penais originárias contra parlamentares que tramitam na Excelsa Corte, impeachment ou declaração de estado de sítio.
Fora esses casos, de nada contribui para a democracia o protagonismo de um Poder em relação ao outro, o que tem levado ao enfraquecimento do Executivo e do Legislativo, e fortalecimento do Judiciário, que tem se apresentado como um superpoder da República, o que nem de longe é autorizado pela Magna Carta, pelo contrário, que consagra expressamente a separação dos Poderes como pressuposto do pacto federativo.
No Brasil, criou-se outra forma de ditadura, não imposta pela força, mas pelo direito, a pretexto de se interpretar a Constituição Federal, já que a palavra final é da Suprema Corte, não havendo a quem recorrer.
Tal distorção na seara do direito recebe o nome de ativismo judicial, ou seja, o Poder Judiciário se arvorando na função de legislar e interpretando as normas como bem lhe aprouver, mesmo que afrontando a Constituição Federal, que tem o dever de proteger. Além do mais, em alguns casos, usurpando o poder de administrar, que é próprio do Executivo.
São muitos os episódios em que isso ocorreu, que sequer preciso mencionar.
Não canso de lembrar que a ditadura tanto pode ter como protagonista o Poder Executivo, que é o usual, mas também pode ser imposta pelo Poder Judiciário, quando reiteradamente descumpre a Constituição Federal, invadindo a competência dos demais Poderes sem que nada possa ser feito.
Em nenhum momento a Magna Carta delegou ao Supremo Tribunal Federal a função de ser o Poder Moderador, como já foi alardeado, pelo contrário, vez que consigna expressamente a separação e independência dos Poderes, que é um dos fundamentos da nossa República.
Quem exerce as funções de legislar e de administrar o país são cidadãos eleitos pelo povo e não indicados e nomeados pelo Presidente da República, após aprovação pelo Senado Federal. As importantíssimas funções do Supremo Tribunal Federal estão previstas no texto constitucional sem que faça a menor menção de ser superior ao Executivo e Legislativo Federal e de poder usurpar funções que não são suas.
Invadir a esfera de competência de outro Poder coloca em risco a própria democracia, posto que fere a harmonia entre os Poderes da República, levando muitas vezes a sérias crises Institucionais, que são resolvidas pelo próprio Poder Judiciário, que dá a última palavra, mas não pode se sobrepor e nem invadir a esfera de competência do Legislativo e do Executivo, que se encontra expressamente prevista no texto constitucional.
Enfim, no regime democrático cada Poder da República funciona de forma independente e harmônica, podendo ser fiscalizado naqueles casos expressamente previstos na Constituição Federal, mas nunca ser invadido em sua esfera de competência privativa e exclusiva, o que caracteriza o regime totalitário ou mero simulacro de democracia.
* César Dario Mariano da Silva é procurador de Justiça, mestre em Direito das Relações Sociais e especialista em Direito Penal. Professor e palestrante, é autor de diversas obras jurídicas, dentre elas: Comentários à Lei de Execução Penal, Manual de Direito Penal, Lei de Drogas Comentada, Estatuto do Desarmamento, Provas Ilícitas e Tutela Penal da Intimidade, publicadas pela Editora Juruá.
