Parece que, ao menos no mundo desenvolvido, o identitarismo trans foi derrotado. Há três meses, a Suprema Corte do Reino Unido decidiu que somente pessoas do sexo feminino se qualificam legalmente como mulheres. O país, junto com os Estados Unidos, nações da Europa e o Brasil, recuou da política de bloqueio de puberdades antes louvada por esse ativismo como abordagem médica para as crianças disfóricas, que os ativistas chamam erroneamente de “crianças trans”.
Duas notícias das últimas semanas ilustram que a derrota pode ser decisiva e irreversível.
Lia Thomas perde títulos e recordes na natação feminina
A atleta trans Lia Thomas, desde 2021, estava ganhando de lavada troféus e recordes na natação feminina da Universidade da Pensilvânia (UPenn), nos EUA. As competições tinham a bênção da Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA). Que atletas trans têm vantagens conferidas pela puberdade masculinizante é um fato científico muito claro (confira este texto).
Desde que Donald Trump voltou a ser presidente dos Estados Unidos, há pouco mais de cinco meses, a NCAA e a universidade estiveram sob pressão para abandonar a inclusão de atletas trans no esporte feminino. Riley Gaines, uma nadadora derrotada por Thomas, tornou-se uma figura recorrente em fotos do presidente na campanha e na Casa Branca.
Ontem, após uma investigação federal ter sido aberta pelo Departamento de Educação para apurar as vitórias de Thomas na UPenn, a instituição concordou em bloquear as atletas trans das competições femininas. E mais: a UPenn vai pedir desculpas às atletas mulheres e restaurar os títulos e recordes que, segundo o departamento, foram “usurpados por atletas do sexo masculino”.
De fato, no site da universidade, Lia Thomas já não consta mais no ranking das nadadoras. Mas a instituição deixou uma última birra: uma legenda na tabela dos recordes. “Nota: Competindo sob regras de qualificação que estavam em vigor na época, Lia Thomas estabeleceu recordes no freestyle de 100, 200 e 500 metros em 2021-2022”. Consideremos um troféu de consolação para substituir os que Thomas terá de “devolver” (serão anulados).
A base legal da investigação, que o governo Trump também abriu contra outras instituições, é a famosa “Título IX”, uma lei de 1972 que proíbe a discriminação por sexo em programas de educação que recebam verbas federais. É a mesma lei usada por Barack Obama para expandir a influência do ativismo identitário dentro das universidades, no episódio que ficou conhecido por sua carta apelidada “Caro Colega” (2011). Se você se lembra de casos de suposto assédio sexual em universidades americanas que eram investigados por burocratas da instituição, em vez de ficarem a cargo da polícia, esta é a origem do fenômeno.
“Reconhecemos que algumas estudantes atletas foram postas em desvantagem por essas regras” de inclusão de atletas trans com vantagem biológica, disse a UPenn em nota. “Reconhecemos e pedimos desculpas àquelas que passaram por desvantagem competitiva ou sofreram de ansiedade por causa das políticas implantadas na época”, completou a universidade, em seu site.
Lia Thomas já se formou e não compete mais na natação universitária. Ela tentou, sem sucesso, competir nas Olimpíadas. Insistiu em competir no esporte feminino pela via judicial, mas a Corte de Arbitragem do Esporte, na Suíça, rejeitou seu caso.
Em 2022, em entrevista à ESPN, Thomas negou que tenha feito transição de gênero para poder competir na natação feminina. “Transicionei para ser feliz, para ser verdadeira comigo mesma”.
Riley Gaines diz que Thomas namorava mulheres em 2022. Se for verdade, isso significa que Lia Thomas é autoginéfila, um tipo de transexualidade muito diferente da que pode ser o caso em meninos afeminados que, após a puberdade, geralmente se revelam gays. O caso geral é que, na infância, as autoginéfilas foram meninos bem típicos para seu sexo. Muitas crescem como homens heterossexuais até expressarem desejo de transicionar, às vezes tarde na vida, já com esposa e filhos. Consulte meu livro para entender mais a fundo os tipos de transexualidade reconhecidos pela ciência.
Revista progressista The Atlantic abandona a causa
A outra derrota humilhante do identitarismo foi uma reportagem especial publicada no domingo passado pela renomada revista The Atlantic, de linha editorial que pende para a esquerda. A autora é a jornalista feminista Helen Lewis, conhecida por ter feito uma entrevista tensa com Jordan Peterson no começo da fama do psicólogo.
O título já é avassalador: “A bolha de desinformação progressista sobre a medicina pediátrica de gênero”. E a chamada, “Como a esquerda terminou desacreditando na ciência”, contém uma alfinetada sutil a um dos slogans da esquerda durante a pandemia, “acredite na ciência”.
Lewis começa dizendo que o argumento do ativismo na questão das crianças disfóricas era primariamente baseado em uma ameaça: “permita que as crianças façam transição, ou elas vão se matar”. É um argumento baseado em manipulação de estatísticas de suicídio (eu esclareci o assunto nesta reportagem).
“Defensores da ciência aberta muitas vezes falam em ‘fatos zumbis’, boatos populares que persistem no debate público mesmo depois de terem sido repetidamente desacreditados”, continua Lewis. “Muitas alegações políticas em defesa dos bloqueadores de puberdade e dos hormônios para menores com disforia de gênero satisfazem essa definição”.
Recentemente, a União Americana de Liberdades Civis (ACLU) defendeu a transição de gênero em menores perante a Suprema Corte e foi derrotada. Foi escolhido para representar a ACLU o advogado Chase Strangio, um homem trans. A reportagem da Atlantic conta que a ACLU costumava ser uma associação defensora da liberdade de expressão, e que Strangio já chamou pela censura de um livro que expressava ceticismo sobre a realidade das “crianças trans”, especialmente entre as meninas.
Em suma, é uma surra. Quem bate é uma jornalista feminista, e quem publicou a surra é uma revista de esquerda. O identitarismo trans nunca teve um momento tão ruim. Resta saber se, como outras ideias que ficam velhas no mundo desenvolvido, ele vai se aposentar no Brasil — o que eu chamo de “Maldição de Millôr”.
