Não dá mais para ignorar a falta de decoro de Trump e Musk - Claudio Dantas
Brasília, Terça, 23 de junho de 2026
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Não dá mais para ignorar a falta de decoro de Trump e Musk

Musk e Trump, imagem gerada pelo Grok.
Musk e Trump, imagem gerada pelo Grok.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Este é um texto que pede por ressalvas iniciais. Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para fazer esta crítica. Não sei ao certo quem seria. Porém, para as pessoas que são indispostas a ouvir críticas a Donald Trump e Elon Musk, preciso fazer uma defesa de mim mesmo para que sejam convencidas que vale a pena me ouvir.

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Não estou indisposto ou enviesado contra ambos. Posso provar. Escrevi uma extensa reportagem sobre como a retórica hiperbólica da esquerda criou um ambiente propício para duas ou três tentativas de assassinato contra Trump. Mostrei em outra reportagem que um estudo mostrou que os ativistas anti-Trump são mais violentos que seus apoiadores mais extremos. Perdi alguns contatos liberais quando os critiquei por sua Trump Derangement Syndrome e por insistirem na tese do Russiagate. Elogiei algumas das ordens executivas de Trump, como a saída dos EUA da OMS.

Sou cliente da Starlink e pago para usar o X. Graças a documentos fornecidos por Elon Musk em 2022 a Michael Shellenberger, sou coautor da série de reportagens Twitter Files Brasil (junto com David Ágape e Shellenberger). Uma vez, eu disse no X que havia dois bilionários para quem eu dava meu dinheiro de bom grado: J. K. Rowling e Elon Musk.

É desse ponto de vista que faço esta crítica: como alguém que não embarcou nos exageros ou alarmismo contra os dois figurões e valoriza seu trabalho, onde há mérito.

O problema com Trump

Tenho seguido a opinião dos economistas que dizem que quem paga por impostos de importação (“tarifas”) não são os países-alvos, mas os consumidores do país que os implementam. Mas há possibilidade de que as tarifas tenham o efeito prometido por Trump: proteger empregos de americanos. Pode ser improvável, mas é possível.

Geralmente, o problema de Trump não são exatamente as ideias: sua ideia em conjunto com Musk, de reduzir as gorduras do Estado americano, é ótima. O problema, geralmente, é de execução. E dentro desse problema de execução, há o problema do decoro, que pode parecer superficial para alguns, mas tem consequências importantes.

Em seu primeiro discurso ao Congresso do país, Trump disse que oito milhões de dólares foram desperdiçados em “tornar camundongos transgêneros”. A CNN alegou que era falso e teve que se retratar por isso. Como expliquei em coluna anterior, há elementos aproveitáveis nessa declaração de Trump.

Trump e seu entorno na Casa Branca poderiam ter celebrado mais uma vitória contra a imprensa enviesada… até publicarem uma nota no site da Casa Branca. Na coluna, eu disse que a nota “não economiza no tom”. Mas estava sendo generoso: o tom da nota foi puro baixo nível.

Uma coisa é Trump utilizar sua retórica ácida de sempre contra a imprensa progressista, que em parte merece essa retórica. Outra é uma comunicação oficial em texto da Casa Branca publicar que “os perdedores [ou ‘otários’] das fake news da CNN tentaram imediatamente fazer checagem de fatos, mas o Presidente Trump estava certo (como de praxe)”. Quem viu filmes americanos suficientes sabe da força do adjetivo loser (perdedor) para eles. Isso, em resumo, é falta de decoro.

Como comentou o analista ponderado de centro que usa o pseudônimo “i/o”, que já teve Elon Musk entre seus 188 mil seguidores no X, “o desrespeito à CNN não é o que chama a atenção neste documento oficial. O que chama a atenção é o desrespeito à instituição da presidência americana”. Para ele, parece que seu país está sendo governado por adolescentes de 15 anos. Tudo em nome da revanche contra os inegáveis abusos anteriores dos progressistas, quando estavam no poder.

Vale acrescentar que essa falta de decoro costumava ser estratégia justamente deles, dos progressistas. São eles, ou, se preferir, é a esquerda que costumava fazer isso. Neste momento, um dos principais debates no Brasil trata do modo indecoroso como a esquerda criticou o Frei Gilson. O influenciador progressista Helder Maldonado, criador da página “Galãs Feios”, alegou que quem acorda às quatro da manhã para orar junto com o “padreco”, por não fazer outras coisas na opinião dele mais úteis no horário, “morre burro, sedentário e com a casa sebosa”. Com frequência, mostro como essa falta de decoro progressista chega ao título de trabalhos acadêmicos pagos com dinheiro público, como a dissertação de mestrado “A folia dos cus prolapsados”.

Há um grau de subjetividade no que é considerado ou não indecoroso, admito. Comecei dizendo que talvez eu não seja a pessoa mais indicada para fazer a crítica — uma das coisas que já propus é que a palavra “viado” seja adotada como uma palavra normal, não pejorativa, como “gay”, para não dependermos tanto do inglês. Só o fato de eu ter mencionado a palavra pode parecer falta de decoro para muitos.

Mas o meu ponto, aqui, é que se tem um lado da política que esperávamos que ligasse mais para decoro é justamente o dos conservadores, da “direita”, que supostamente é o lado de Trump.

Quando se cobra esse tipo de coisa dos conservadores, aqueles mais belicosos das redes sociais invariavelmente respondem que quem se recusa a usar as armas dos inimigos é que seria, sim, “otário” e destinado à derrota. Isso nada mais é que uma racionalização do revanchismo, como fazem os progressistas identitários ao exigir que não se confunda “a reação do oprimido com a violência do opressor”.

Essa racionalização do revanchismo está tão prevalente que, um tempo atrás, recebi nas redes sociais como resposta uma defesa da censura vindo de um roteirista da Brasil Paralelo. Claro, a produtora não tem culpa por isso, a responsabilidade é toda do roteirista por suas opiniões. Mas o fato de alguém que trabalha com produção cultural alternativa ao domínio progressista nesta área chegar a este ponto é muito revelador sobre a atmosfera que estamos vivendo: a esperança de nos libertarmos dos estragos causados pelo woke está sendo lentamente substituída por uma decepção onde a chance histórica de resposta civilizada poderia ter sido mais bem aproveitada.

Gostaria que cancelamento, censura e tribalismo extremado fossem exclusividade dos wokes e seus aliados. Mas a natureza humana, como diz Thomas Sowell, é falha e limitada, e gradativamente veremos esse comportamento replicado entre os antiwokes. E assim, com o uso das mesmas táticas, os adversários se confundem com os aliados da causa.

Os EUA não são o Brasil, claro. Por aqui, temos imprensa pelega poderosa produzindo propaganda para o governo enquanto se finge de neutra. Por lá, em contraste, Trump já obteve suas vitórias, ganhou US$ 15 milhões em indenização da ABC News por difamação. A imprensa americana é uma sombra do que já foi, enfrenta os mesmos problemas generalizados do colapso de fontes de renda que há por aqui.

Houve um tempo em que ouvir Trump apontando para a cara de repórteres de grandes veículos e dizendo “você é fake news” era uma brisa de ar fresco depois de anos de sufocamento de posições não progressistas no debate público. Este tempo já passou. Agora, especialmente quando respinga de postagens na Truth Social e no X para documentos oficiais da Casa Branca, só parece uma contribuição para a deterioração do debate público.

O britânico Sir Roger Scruton foi um dos melhores filósofos conservadores que já viveram. Eis o que ele tinha a dizer sobre decoro, ou seja, boas maneiras: “A arquitetura, como o vestuário, é um exercício de boas maneiras, e as boas maneiras envolvem o hábito da insinceridade hábil — o hábito de dizer ‘bom dia’ para aqueles cujas manhãs você preferiria arruinar, e de passar a manteiga àqueles que você preferiria deixar morrerem de fome”.

Aqui está o cerne do problema com a retórica de Trump, especialmente após a segunda vitória: o que funcionou para ele desde 2016 foi a sinceridade radical e destemperada, o atropelo do politicamente correto, que o eleitorado vê como autenticidade. Se boas maneiras são, como diz Scruton, insinceridade hábil, elas serão atropeladas, e algo das tradições paga o preço por isso. Os apoiadores de Trump precisam ver que não é verdade que o politicamente correto é sinônimo das boas maneiras tradicionais. Quem diz essa falsidade, aliás, são os próprios defensores do politicamente correto, e estão errados. Não faz sentido, ao fazer oposição a eles, concordar com eles ao jogar o bebê fora junto com a água do banho.

O problema com Musk

O destempero de Elon Musk em sua própria rede social é quase diário. Há cinco horas, ele disse “você é um traidor” para Mark Kelly, senador do Arizona e astronauta aposentado. Tudo o que Kelly disse foi que ele estava terminando uma visita à Ucrânia e que havia concluído que “qualquer acordo precisa proteger a segurança da Ucrânia e não pode ser um presente para Putin”.

Pode-se discordar de Kelly, até ver intenções ruins por trás da mensagem. Mas o fato para qualquer um observar é que Kelly teve decoro, Musk não.

O ensaísta Richard Hanania, que também já foi seguido por Musk (a tendência do bilionário a se afastar das pessoas mais moderadas faz parte do fenômeno), escreveu uma longa crítica à postura de Musk, incluindo potenciais exageros cometidos no Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), que o empresário preside.

Não concordo com tudo, mas achei este insight de Hanania muito proveitoso:

“Quando o woke é criticado, ouve-se às vezes a resposta segundo a qual você deve se familiarizar com as ideias dos especialistas em uma área antes de expressar uma opinião. Admito que não passo muito tempo lendo acadêmicos feministas ou marxistas, pelo mesmo motivo que não leio tratados de astrologia. Quando a premissa de uma área é errada a este nível, geralmente não há muito a aprender com ela. O conhecimento básico da biologia é suficiente para antecipar qualquer coisa que possa ser alegada com base na premissa de que não há diferenças importantes de personalidade entre os sexos, e a economia básica fornece bases suficientes para jogar no lixo a análise marxista.

Penso que uma chave para entender Musk é que ele pensa exatamente dessa forma não só a respeito de modas acadêmicas woke, mas em tudo que seja relacionado à política e ao governo. Ele acredita que você pode entender tudo o que precisa saber com base nos princípios básicos, contanto que você tenha adotado uma ideologia improvisada antiwoke e pendendo a libertária e entenda que a imprensa, o governo e os progressistas em geral são corruptos.”

Musk agora é parte da cúpula de um governo. Ele está governando. Não pode mais tratar o governo do lado de fora, como os críticos preguiçosos e cínicos que dizem que todo político não presta e não há nada o que se possa fazer. Ele tem responsabilidade de pesquisar mais antes de afirmar sem provas que milhões de cadastrados mortos da Previdência Social estão recebendo dinheiro (fato inusitado que cobri — o fato é o registro, não o recebimento de dinheiro), e antes de desrespeitar todos os funcionários do governo federal exigindo que provem que sua semana foi produtiva sob pena de demissão sumária em caso de falta de resposta.

Escrevo este texto com a esperança de que Trump e Musk redescubram o valor da cordialidade, das boas maneiras, do decoro e — para tocar em outro problema — da verdade pura e simples, que pede mais apuração antes de afirmação. É aqui que divirjo de Hanania: ele afirma que “progressistas só censuram, Musk quer lobotomizar”.

A “lobotomia” seria uma falta completa de interesse pela verdade e pelo pensamento sobre política, e indícios disso seriam que Musk não lê nada além de memes sobre política/governança e que ele diminuiu o alcance de links externos no X. Acho essa tese da “lobotomia” exagerada.

Talvez sejam dores de um governo que está só no começo, com menos de dois meses. Como o próprio Trump disse, o trabalho de desinchar o Estado deve ser feito com um bisturi, não com uma machadinha. Coisa que ele provavelmente pegou do Brookings, um think tank apartidário e com fama de centrista, exatamente o tipo de fonte de qualidade que o presidente deve ouvir mais. O vocabulário original do Brookings foi “Como se corta o governo? Com um bisturi, não com um machado”.

O elefante na sala, claro, foi a reunião televisada de Trump e seu vice com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky (Musk apoiou com entusiasmo Trump e Vance). Podemos discordar quanto a quem errou mais ali. Vi bons argumentos de ambos os lados. Mas seria razoável para todos os lados, creio, que foi algo que teria ficado melhor como uma reunião a portas fechadas. Isso, também, foi parte do padrão de abandono do decoro.

Se não podemos contar com conservadores para conservar nem isso, as portas estão abertas para questionar mais uma vez a validade dos rótulos políticos (como certamente farão alguns leitores com meu uso de “progressista” para quem rotula a si próprio assim). Um fato interessante é a quantidade de pessoas importantes no novo governo americano que são ex-democratas: Trump, Musk, a chefe de inteligência Tulsi Gabbard, entre outros. Às vezes a pessoa sai do progressismo, mas o progressismo não sai inteiramente dela. Continuo a acreditar que querer explodir as normas sociais e jogar as tradições fora, até a tradição das boas maneiras, é algo profundamente progressista.

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