O governo do presidente Lula (PT) afirmou nesta quinta-feira (23) ver com “preocupação” o anúncio feito pelo presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, de que o país não realizará mais eleições para escolha de governantes. A manifestação ocorreu quatro dias após a declaração do líder nicaraguense.
Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty fez um apelo às autoridades da Nicarágua para que assegurem a realização de eleições livres e democráticas no país.
Segundo o comunicado, “a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia, valor com que o Brasil tem um profundo compromisso”.
O governo brasileiro também afirmou que “conclama as autoridades do país, por isso, a assegurarem ao povo nicaraguense o livre exercício do direito soberano de escolha dos seus governantes”.
A declaração de Ortega ocorreu no último domingo (19), durante um comício em Manágua em celebração aos 47 anos da Revolução Sandinista. Na ocasião, o presidente afirmou que partidos de oposição não voltariam ao poder por meio de eleições.
“Não pensem que porque não há guerra, estamos em paz. Eles continuam conspirando, conspirando, acabou a história de que partidos colocados pelos ianques, colocados pelos somozistas, voltarão ao governo. Jamais, jamais, jamais”, declarou.
Ortega também acusou opositores de tentarem utilizar processos eleitorais para assumir o controle do país. A Nicarágua tem eleições presidenciais previstas para 2027.
Histórico de proximidade
A manifestação do governo brasileiro ocorre após anos de aproximação política entre Lula e Ortega, marcada por posições semelhantes em temas internacionais e pela defesa da chamada autodeterminação dos povos.
Em 2021, durante a eleição presidencial da Nicarágua, o Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou uma nota em que classificou o pleito como “uma grande manifestação popular e democrática” e afirmou que o resultado representava o apoio da população ao projeto político liderado pelo governo sandinista.
O posicionamento gerou críticas após denúncias internacionais de repressão contra opositores do regime de Ortega. Dias depois, a nota foi retirada do site do partido. À época, a então presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, afirmou que o texto não havia passado pela direção da legenda.
Também em 2021, Lula comentou a permanência de Ortega no poder e comparou a situação do líder nicaraguense ao período em que Angela Merkel esteve à frente do governo alemão.
“Temos que defender a autodeterminação dos povos. Sabe, eu não posso ficar torcendo. Por que que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não?”, afirmou Lula na ocasião.