A anestesia social que vivemos no Brasil de hoje cobrará seu preço a partir de 5 de janeiro de 2027. Escândalos de corrupção, rombo nas contas públicas, gestão temerária de estatais, inflação, miséria. Nada disso parece causar desconforto ou gerar indignação suficientes. Um Congresso subjugado pelo Supremo, perseguição política, censura aos críticos. Uma mídia dócil e manipuladora. Apesar da permanente tentativa de tampar o sol com a peneira, a verdade dos fatos fere os olhos daqueles que ainda amam a liberdade e a democracia. Os demais parecem optar por óculos escuros, bem escuros.
Mas após o 5 de janeiro de 2027, ninguém poderá dizer que foi pego de surpresa. Pois, tudo o que acontece por essas bandas hoje tem precedente histórico. Chega a ser cansativo, mas necessário, revisitar a ascensão do mais notório dos tiranos e da apatia que dominou a sociedade alemã. Como um país inteiro não enxergou o óbvio, como lideranças de oposição não reagiram, como todos foram capazes de tolerar qualquer coisa que lhes fosse enfiada pela goela ou pelo ânus? Como admitiram a exterminação industrial de milhões de seres humanos?
O movimento nazista (1933–1939) teve alguns grandes pilares que ajudam a explicá-lo como fenômeno político-social: Hitler nunca deu um golpe militar clássico. Ele usou as próprias regras da democracia de Weimar para destruí-la. Cada decreto autoritário parecia revestido de legalidade. O furher também apostou na prosperidade para amortecer eventuais queixas e colocar boa parte de sociedade a seu lado; numa estratégia combinada com o controle da mídia e do Judiciário, usado para perseguir vozes dissidentes.
Fez escola.
O cidadão comum aceitou a perda gradual de suas liberdades porque o bolso parecia cheio e o terror, cirúrgico, mirava apenas “o outro”. A ilusão de prosperidade, porém, foi rapidamente substituída pela escassez da guerra, com um Estado livre para cobrar mais impostos e empobrecer toda a população, que acabou convocada às trincheiras para defender a “nação ariana”. Violência generalizada, miséria generalizada e extinção generalizada de vidas. O caminho é sempre o mesmo e os métodos são todos muito parecidos.
No caso do Brasil, a situação é, sobretudo, precária. Uma gambiarra autocrática que faria Hitler se revirar no túmulo.
A ilusão de prosperidade é sustentada, não por uma economia vigorosa que gere empregos em massa e fortaleça a classe média, mas por um arranjo tosco que mescla a ampliação de auxílios sociais para os mais pobres, linhas de crédito com juros escorchantes para os trabalhadores em geral e benefícios fiscais, empréstimos subsidiados e informações privilegiadas para uma elite econômica corrupta.
Tudo isso ao custo do endividamento cada vez maior do Estado e o engessamento do orçamento público, destinado basicamente à sustentação de uma máquina gigante de privilégios à elite política e tecnocrata — e, claro, ao pagamento de juros abusivos ao oligopólio bancário.
Se a ruína econômica é iminente, a busca desesperada por ‘capital de giro’ leva o governo a leiloar, a preço vil, as últimas riquezas nacionais, entregando o resto de soberania a parceiros ideológicos que dão a mínima para valores democráticos e direitos individuais, inclusive trabalhistas. Na verdade, o alinhamento diplomático é causa e consequência, parte necessária para garantir a própria sobrevivência do regime, assim como a infiltração planejada em tribunais e jornais. É a mais perfeita simbiose do direito penal do inimigo com a espiral do silêncio.
O pior disso tudo é ver a oposição entregar o jogo de graça. A tragédia da centro-direita brasileira, que deveria servir de dique de contenção a esse avanço, é sua crônica incapacidade de enxergar além do próprio umbigo eleitoral. O vácuo deixado pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro não gerou uma união programática, mas uma guerra de foice pelo espólio político de 2026.
Conservadores e liberais, pragmáticos e ideológicos, se engalfinham nas redes sociais trocando acusações de “traição” e “isenção”, enquanto o Centrão fisiológico é fisgado na ratoeira bilionária das emendas parlamentares. Quando um aliado é abatido pelo ativismo judicial, os demais fingem que não é com eles, na esperança covarde de que o sistema os poupe. O resultado? O Senado se ajoelha, as iniciativas de freio institucional naufragam e o poder central avança mais uma casa no tabuleiro.
Nesse transe coletivo, olham para o abismo institucional e ainda acreditam que conseguirão negociar com ele.