Esquerda insiste em PL da Misoginia, mas não tem acordo - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 15 de julho de 2026
Política

Esquerda insiste em PL da Misoginia, mas não tem acordo

Falta de consenso mantém projeto sob negociação na Câmara, enquanto textos sobre MEI e crédito ao agro devem ser votados apenas após o recesso

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

O projeto de lei que tipifica a misoginia entra na reta final antes do recesso parlamentar sem garantia de votação. A relatora da proposta, deputada Tabata Amaral (PSB-SP), intensificou as negociações para tentar construir um acordo entre governo, oposição e diferentes bancadas, mas a falta de consenso mantém o texto fora da pauta do plenário.

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Apesar das negociações conduzidas pela relatora, o site apurou junto a parlamentares da oposição que não há perspectiva de acordo para a votação da proposta antes do recesso parlamentar. Segundo esses deputados, o texto continua abrindo margem para interpretações que, na avaliação deles, podem restringir a liberdade de expressão e ampliar a atuação do Judiciário sobre manifestações de opinião.

Negociações continuam até o último momento

A proposta, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), foi aprovada pelo Senado em março e tramita em regime de urgência na Câmara, o que permite votação diretamente no plenário.

Apesar disso, a relatora reconheceu que o texto segue em construção e afirmou que novas sugestões foram apresentadas durante as negociações.

“O texto que apresentei, o texto que estamos elaborando não é o texto dos meus sonhos. E acho que também não é o texto dos sonhos de nenhuma das mulheres que estão aqui. Mas é o texto possível para que possamos deixar de lado, neste momento, pequenas diferenças e também a eleição, porque é disso que se trata, para pautarmos esse projeto.”

Segundo Tabata, o parecer foi elaborado após reuniões com lideranças partidárias, bancadas temáticas, representantes do governo e da bancada evangélica.

“Estou construindo um texto que precisa reunir apoio dos senadores, do Planalto, de partidos de esquerda, de partidos de direita e também da bancada evangélica.”

Integrantes da oposição afirmam que, mesmo após as alterações promovidas no relatório, permanecem contrários ao projeto. A avaliação é de que a redação ainda não oferece segurança jurídica suficiente para impedir interpretações consideradas subjetivas.

Relatora diz que sugestões da bancada evangélica foram incorporadas

Na terça-feira (14), Tabata afirmou que todas as demandas apresentadas pela bancada evangélica foram incorporadas ao relatório e informou que novas reuniões foram realizadas para concluir um acordo.

Segundo a deputada, o texto foi alterado para restringir o conceito de misoginia e afastar interpretações sobre eventual limitação à liberdade de expressão.

A redação aprovada no Senado definia misoginia como a conduta de “exteriorizar ódio ou aversão às mulheres”. No parecer da Câmara, a definição passou a prever “a prática, a indução ou a incitação de violência, de restrição ao pleno exercício de direitos ou de ofensa à dignidade da mulher, em razão da condição de mulher”.

Parlamentares ouvidos pela reportagem sustentam que não haverá acordo enquanto o texto mantiver dispositivos que, na avaliação da oposição, podem ser utilizados para limitar manifestações protegidas pela liberdade de expressão. A relatora, por sua vez, afirma que o objetivo da proposta é responsabilizar apenas condutas que incentivem violência ou discriminação contra mulheres e nega que o projeto alcance opiniões ou crenças.

Oposição mantém críticas ao texto

Mesmo após as alterações, parlamentares da oposição continuam defendendo mudanças na redação.

O principal argumento é que alguns dispositivos ainda podem gerar interpretações subjetivas e afetar a liberdade de expressão.

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou em plenário que trabalha para impedir a votação da proposta. Segundo ele, o projeto poderia ser utilizado para restringir críticas a integrantes do governo federal.

Durante o discurso, o parlamentar também defendeu que a Câmara priorize pautas relacionadas à segurança pública.

Na mesma linha, a deputada Julia Zanatta (PL-SC) afirmou que o projeto poderia ser usado para impedir questionamentos sobre despesas da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja.

As críticas ocorreram após Janja afirmar, em entrevista concedida na segunda-feira (13), que as acusações de ser “gastadeira” representam “misoginia pura”.

Bancada feminina cobra votação antes do recesso

Deputadas da bancada feminina realizaram uma mobilização para pressionar a presidência da Câmara a incluir a proposta na pauta desta semana.

A coordenadora da bancada, deputada Jack Rocha (PT-ES), afirmou que a criminalização da misoginia integra as medidas previstas no Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios e defendeu a votação antes do recesso parlamentar.

A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) declarou que a proposta complementa a Lei Maria da Penha ao tipificar a misoginia como etapa inicial de outras formas de violência contra mulheres. Já Maria do Rosário (PT-RS) afirmou que adiar a votação significaria retirar prioridade de um tema relacionado ao enfrentamento do feminicídio.

Apesar da pressão, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), indicou que a proposta não deverá ser apreciada nesta quarta-feira (15), reduzindo praticamente à quinta-feira (16) a última possibilidade de votação antes do recesso.

Pautas econômicas ficam para agosto

Enquanto o PL da Misoginia segue em negociação, outras matérias consideradas prioritárias pela presidência da Câmara já foram retiradas da agenda desta semana.

Uma delas é o projeto que amplia o limite de faturamento do MEI para R$ 130 mil anuais e permite a contratação de até dois empregados.

A proposta enfrenta resistência do governo, que aponta impacto fiscal elevado caso as mudanças sejam aprovadas em conjunto com alterações no Simples Nacional.

Também deve ficar para depois do recesso o projeto que autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal para criar linhas especiais de renegociação de dívidas de produtores rurais afetados por perdas climáticas.

O texto, aprovado pelo Senado em junho, ainda enfrenta divergências entre o governo e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), principalmente em relação ao impacto fiscal da medida.

Com o calendário apertado e a ausência de consenso sobre o PL da Misoginia, a tendência é que a Câmara concentre esforços nas negociações até os últimos dias antes do recesso, enquanto parte das pautas econômicas deverá ser retomada apenas no segundo semestre.

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