El Niño expõe fragilidade de 3,6 mil cidades diante de enchentes
Brasília, Sexta, 12 de junho de 2026
Brasil

El Niño expõe fragilidade de 3,6 mil cidades diante de enchentes

NOAA prevê fenômeno muito forte, enquanto levantamento aponta baixa capacidade de adaptação em dois terços dos municípios brasileiros

(Porto Seguro - BA, 12/12/2021) Presidente Bolsonaro sobrevoa áreas atingidas por enchentes no Estado da Bahia. Foto: Isac Nóbrega/PR

Compartilhe em

Foto do autor

Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

A confirmação do retorno do El Niño colocou em evidência a vulnerabilidade de milhares de municípios brasileiros diante de eventos climáticos extremos. Levantamento da plataforma AdaptaBrasil mostra que 3.668 cidades, o equivalente a 66% do país, apresentam baixa ou muito baixa capacidade de adaptação a enchentes, enxurradas e alagamentos.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

O cenário também preocupa em relação aos deslizamentos de terra. Segundo os dados, 3.736 municípios possuem estrutura considerada insuficiente para enfrentar esse tipo de ocorrência, enquanto 1.041 cidades já apresentam risco elevado para desastres associados a movimentos de encostas.

O alerta ocorre após a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmar oficialmente a formação do fenômeno. O órgão estima 63% de probabilidade de que o atual episódio alcance intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027.

A agência também projeta alta probabilidade de permanência do fenômeno durante os próximos meses. Modelos climáticos indicam aquecimento acelerado das águas do Pacífico Equatorial, condição associada a alterações nos padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta.

No Brasil, os efeitos mais recorrentes costumam aparecer na distribuição das precipitações. Historicamente, o Sul registra aumento das chuvas durante episódios de El Niño, elevando o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos.

A própria plataforma AdaptaBrasil aponta que 343 municípios da Região Sul apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa para enfrentar eventos desse tipo. O grupo inclui 158 cidades do Rio Grande do Sul, 107 do Paraná e 78 de Santa Catarina.

As enchentes registradas no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024 ocorreram durante a atuação do fenômeno climático, embora especialistas ressaltem que eventos extremos resultam da combinação de diversos fatores atmosféricos e não apenas da temperatura das águas do Pacífico.

Apesar dos alertas, especialistas também destacam que a intensidade do fenômeno não se traduz automaticamente em desastres em todas as regiões. Relatório técnico da Metos Brasil afirma que “a intensidade do El Niño não se traduz automaticamente em desastres locais” e destaca que a resposta da atmosfera ao aquecimento oceânico não ocorre de forma linear.

El Niño impacto no Brasil. Imagem: Reprodução

O documento lembra que o termo “Super El Niño” é amplamente utilizado pela mídia, mas não integra a classificação técnica oficial adotada pela NOAA, que utiliza a categoria “Muito Forte” para os eventos mais intensos.

Segundo o relatório, a atmosfera responde a múltiplos fatores simultaneamente, incluindo padrões de ventos, circulação atmosférica e temperaturas dos oceanos Atlântico e Índico. O estudo cita ainda o episódio de 2015/2016, quando previsões indicavam chuvas excepcionais na Califórnia, mas o inverno acabou sendo mais seco do que o esperado.

“O clima global é uma orquestra, e o Pacífico é apenas um instrumento”, registra o documento ao abordar a influência de outros mecanismos climáticos sobre os resultados regionais.

Pesquisadores também avaliam que os efeitos atuais do El Niño podem ser potencializados pelo aumento contínuo das temperaturas globais. Segundo o relatório, uma atmosfera mais quente possui maior capacidade de armazenar vapor d’água, ampliando o potencial para eventos extremos de chuva.

O meteorologista Tércio Ambrizzi, diretor do Instituto de Energia e Ambiente da USP, afirma que o aquecimento global pode estar influenciando o comportamento do fenômeno. “O calor da atmosfera e o aquecimento global provavelmente estão impactando os eventos de El Niño. Existem vários sinais observacionais apontando nessa direção, embora ainda haja incertezas sobre exatamente como isso acontece”, disse.

A oceanóloga Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), observa que episódios intensos do fenômeno passaram a ocorrer em intervalos menores. Segundo ela, eventos fortes que antes surgiam a cada dez ou quinze anos agora aparecem com maior frequência.

O Plano Clima do governo federal estima que 1.942 municípios brasileiros sejam mais suscetíveis a desastres relacionados a chuvas extremas. O levantamento aponta que quase 9 milhões de pessoas vivem atualmente em áreas de risco.

Enquanto o Sul deve enfrentar maior probabilidade de chuva acima da média, as projeções indicam possibilidade de estiagens mais prolongadas no Norte e em parte do Nordeste. Já no Sudeste e Centro-Oeste, o padrão mais comum envolve temperaturas acima da média e alterações na distribuição das chuvas.

A expectativa dos centros meteorológicos é que o fenômeno atinja seu pico entre o fim da primavera e o início do verão, período em que seus efeitos costumam se tornar mais evidentes sobre a América do Sul.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade