Donald Trump foi atacado por praticamente toda mídia mainstream ocidental ao impor à Ucrânia um acordo para exploração de minerais raros, em troca do apoio militar que os EUA vêm prestando ao país desde o início da invasão russa. O presidente americano chegou a mencionar que seu país alocou para Kiev a astronômica cifra de US$ 350 bilhões, enquanto registros oficiais apontam para um valor empenhado de US$ 182 bilhões, dos quais US$ 83 bilhões teriam sido realmente pagos — o restante pendente de autorização.
Não existe almoço grátis, nem guerra.
Impressiona que a administração de Joe Biden tenha entregue tantos recursos sem qualquer contrapartida. É justamente isso que Trump deseja reverter, embora o presidente americano esteja sendo acusado de se aliar a Vladimir Putin. Ocorre que a maior parte dos minerais críticos e raros que os EUA desejam explorar na Ucrânia estão em território ocupado pelas forças russas. Significa, portanto, que Volodymyr Zelensky poderia usar estrategicamente o apoio militar americano para reaver essas áreas.
O presidente ucraniano, porém, parece ter colocado tudo a perder ao recuar do acordo ao vivo durante reunião televisionada no Salão Oval ao lado do próprio Trump e de seu vice, J.D. Vance. Foi um dos episódios mais constrangedores da diplomacia internacional até hoje e isso se explica de forma óbvia: acordos estratégicos são firmados a portas fechadas, onde as partes podem se digladiar até chegar a um consenso, e depois anunciados. Romper a corda ao vivo é imprudente. Fazer isso dentro da Casa Branca, a quem Zelensky deve a sua própria vida, é ofensivo.
Quem acha que Trump é um malvadão por cobrar pelo apoio bilionário deveria rever o programa Anglo-American Mutual Aid Agreement, firmado entre as administrações de Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill, e que garantiu o inestimável e decisivo apoio dos EUA à guerra contra o avanço das tropas de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra. Ou mesmo a lei Lend-Lease, que abriu uma linha de crédito a vários aliados durante o período, permitindo que obtivessem equipamentos, armas e munições para combater o Eixo.
Ao todo, foram enviados a esses países mais de US$ 50 bilhões em suprimentos, o equivalente hoje a US$ 647 bilhões. Um alívio, especialmente para a Coroa Britânica, que já havia esgotado suas reservas. A dívida financeira dos britânicos com os EUA foi quitada ao longo de 61 anos; enquanto a dívida moral é impagável. Aliás, não só por parte de britânicos e europeus, mas também das antigas colônias britânicas que alcançaram a independência por efeito das diretrizes contidas na Carta do Atlântico.
De uma perspectiva histórica, a fatura imposta por Roosevelt virou troco de pinga, ou de cervejinha. Churchill, um sujeito orgulhoso do Império Britânico, teve de entregar os anéis, lidar com a aproximação incômoda entre americanos e soviéticos, engolir o orgulho para salvar seu povo. Ironicamente, foi rejeitado no primeiro teste das urnas após a Guerra. Mas passou à história como um dos maiores estadistas de todos os tempos.
Na fatídica reunião de ontem, uma pergunta do repórter Brian Glenn a Zelensky chamou atenção: “Por que você não usa um terno? Você ocupa o cargo mais alto do país e se recusa a usar um terno.” O presidente ucraniano, de traje esportivo, disse que só voltaria usar terno quando seu país não estiver mais em guerra e ainda reagiu, irascível: “Talvez um terno como o seu, Brian, ou algum melhor, não sei… Mas veremos, talvez algo mais barato.” Talvez o tipo de terno que Zelensky usava em seu programa humorístico, antes de ser eleito presidente.
