Um terreno pertencente ao senador Jaques Wagner (PT-BA) registrou valorização de aproximadamente 11.400% em 26 anos, período que coincide com a implantação da Via Metropolitana de Camaçari, obra planejada durante sua gestão como governador da Bahia. O imóvel, adquirido em 2000 por R$ 28 mil, foi negociado neste ano por R$ 15 milhões, mas a transferência acabou suspensa por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
As informações, divulgadas pela Folha de S.Paulo, mostram que o terreno, localizado em Camaçari (BA), foi comprado quando Jaques Wagner era deputado federal. Corrigido pela inflação, o valor desembolsado à época corresponde a cerca de R$ 133,8 mil em valores atuais.
A valorização ocorreu ao longo do período em que a região passou por mudanças urbanísticas, incluindo a construção da Via Metropolitana de Camaçari. A rodovia, com 11,2 quilômetros de extensão, começou a ser planejada durante o governo de Jaques Wagner, teve contrato aditado em 2014, as obras iniciadas em 2015, na gestão de Rui Costa (PT), e foi inaugurada em 2018.
O terreno integra a área onde está previsto um empreendimento residencial de alto padrão associado ao novo centro de treinamento do Esporte Clube Bahia. O contrato firmado previa a venda do imóvel à empresa Lagoons Empreendimentos por R$ 15 milhões, sendo R$ 2 milhões em pagamento antecipado e R$ 13 milhões em unidades imobiliárias no futuro empreendimento.
A operação, contudo, foi interrompida após decisão do ministro André Mendonça, do STF, que determinou o bloqueio de bens do senador no âmbito das investigações relacionadas ao caso Banco Master. O cartório responsável pelo registro da transferência suspendeu a conclusão do negócio em cumprimento à ordem judicial.
Em entrevista à rádio Andaiá FM, nesta sexta-feira (24), Jaques Wagner negou que a valorização do imóvel tenha relação com a construção da rodovia. Segundo o senador, parte da propriedade foi utilizada para a implantação da via e ele optou por não solicitar indenização pela desapropriação.
“Sobre o terreno, dá até vontade de rir, porque o terreno talvez tenha sido a única obra feita na Bahia para benefício dos baianos que não teve paga desapropriação. A estrada passou pelo traçado que os engenheiros acharam melhor, cortou um pedaço do terreno e eu disse: ‘não vou cobrar nenhuma desapropriação'”, afirmou.
O parlamentar também minimizou o aumento do valor da propriedade ao longo dos anos, argumentando que a valorização de imóveis é natural após mais de duas décadas.
Nas redes sociais, o próprio Jaques Wagner já havia associado a Via Metropolitana ao desenvolvimento da região ao comentar a construção do novo centro de treinamento do Bahia. Em uma publicação, escreveu: “Quem diria que a Via Metropolitana, que eu comecei e Rui Costa terminou, hoje nos daria a possibilidade de construir o novo Centro de Treinamento do Esporte Clube Bahia?”
A empresa Lagoons Empreendimentos afirmou, em nota, que a negociação foi realizada dentro dos parâmetros legais e que a compra do terreno seguiu critérios de mercado, passando por diligências e validações independentes. Segundo a companhia, o imóvel representa cerca de 4% da área total destinada ao empreendimento e sua aquisição não possui relação com a concepção do projeto imobiliário.
A venda do terreno faz parte das apurações relacionadas ao caso Banco Master. Jaques Wagner foi alvo de operação da Polícia Federal em junho e deverá prestar depoimento no próximo mês. A investigação apura suspeitas de favorecimento ao banco em troca de vantagens indevidas, acusações negadas pelo senador. Após a operação, Wagner deixou a liderança do governo Lula no Senado.