Por JH Fonseca*
Se uma empresa exagera nos bônus associados ao crescimento de vendas, por exemplo, seus funcionários podem se esquecer de gerar lucro. A literatura é farta.
De modo resumido, isso produziu aquisições caras, expansão de operações pouco rentáveis e contabilidade criativa. O lucro não foi incentivado e, por consequência, minguou até a empresa entrar em uma reestruturação, liderada por um novo CEO austero, Larry Culp.
Com países não é diferente. A Argentina incentivou por décadas as coisas erradas, taxando quem produz, subsidiando ineficientes e gastando mais do que devia. Com efeito, teve o mesmo destino que a GE: quebrou e agora tem seu próprio “CEO austero”. Javier Milei e Larry Culp são soluções para um mesmo problema: incentivos errados e irresponsabilidade.
O Brasil não escapará da Ciência Econômica
O governo brasileiro não faz gestão das consequências de programas sociais, impostos e de estímulos a setores da economia. Criou-se o hábito de criar gastos, incentivos e nunca mais questioná-los. Virou um pecado imperdoável querer avaliar os limites tanto da eficácia do uso do dinheiro público quanto da tributação.
O pecado é ainda maior se você questionar os limites da taxação de empresários ou corporações. O PT impregnou a sociedade brasileira com discursos de ódio entre classes, que não correspondem à realidade. Enquanto seus membros falam bobagens como “bilionários não deveriam existir”, o fato é que países com mais bilionários, empreendedores e inovadores possuem rendas médias maiores, níveis de educação melhores e menos pobreza. Neste caso, porém, a esquerda ignora estrategicamente a literatura científica.
A ciência econômica precisa voltar para Brasília
Comecemos do mais simples: tudo tem um limite de eficiência, tornando os retornos decrescentes a partir de um certo ponto.
Gráfico 1: a velha Curva de Laffer é ignorada em Brasília:

Fonte: elaboração JH Fonseca.
Na religião que se instalou em Brasília, gasto é vida e imposto é solução. Perguntas simples como “será que estamos no ponto ótimo desse programa?”, “será que já passamos do ponto nesse imposto?”, tornaram-se inexistentes no debate político.
Não há sequer um ministro discutindo se já passamos do ponto onde taxar esse ou aquele setor pode ser mais nocivo do que vantajoso diante da arrecadação potencial (gráfico de Laffer acima), muito menos discutindo os impactos na vontade de investir. Porém, eles existem e já podem ser sentidos.
Gráfico 2: confiança empresarial está em queda livre:

Fonte: FGV, elaboração própria.
Ninguém está preocupado com os incentivos, mas isso não muda a realidade
Existe uma frase atribuída a Ayn Rand que serve de alerta para o momento atual do Brasil:“você pode ignorar a realidade, mas não pode ignorar as consequências de se ignorar a realidade”. Estimular o crescimento econômico com gasto e taxação é uma receita fracassada que rapidamente se esgota.
Chegamos até a crise da Dilma com essa receita e, até hoje, não conseguimos sair desse atoleiro. Governos anteriores bem que tentaram reduzir nosso gasto público, possibilitando menores juros impostos, mas uma Pandemia no meio do caminho e a eleição de um novo governo gastador interrompeu essa trajetória. O resultado?
Gráfico 3: renda média brasileira simplesmente está parada desde 2011:

Fonte: Bloomberg, elaboração JH Fonseca.
Enquanto brasileiros discutem o aqui e agora, a fotografia temporalmente ampliada mostra que temos um problema estrutural. A cada ano, ficamos relativamente mais pobres em relação ao mundo rico.
Brasília não enxerga isso e tudo o que sabe fazer é dobrar a aposta. Não bastasse o aumento do IOF e a proposta de taxar dividendos, nesta semana o líder do governo propôs taxar ainda mais os empresários:aumentando em 10% a base de cálculo do IRPJ e CSLL das empresas do lucro presumido. Se o governo precisa de dinheiro, por que não discutir a redução de outros gastos? É tabu, mas precisamos falar, por exemplo, do Bolsa Família, que cresceu tanto que já compromete a força de trabalho.
Viramos um país que incentiva os improdutivos, com fartos programas sociais e de subsídios não fiscalizados, e que penaliza quem produz. Se você fosse Charlie Munger, que futuro você diria que aguarda o Brasil?
*João Henrique da Fonseca (JH Fonseca) : economista e sócio-fundador da Azul Wealth Management (AWM), com mais de R$1,1 bilhão sob gestão.