Propaganda anti-Israel usou criança com problema genético como prova de fome em Gaza - Claudio Dantas
Brasília, Sexta, 26 de junho de 2026
Artigos Exclusivos

Propaganda anti-Israel usou criança com problema genético como prova de fome em Gaza

Foto: Reprodução/David Collier/X.
Foto: Reprodução/David Collier/X.

Compartilhe em

Foto do autor

Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Dez dias após o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023, que iniciou a atual guerra do grupo contra Israel na Faixa de Gaza, veículos renomados da imprensa ocidental erraram ao culpar Israel por uma bomba que atingiu o hospital al-Ahli, na região.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

“Bombardeio israelense matou centenas de palestinos em um hospital da cidade de Gaza cheio de pacientes e desalojados”, disse a agência Reuters. Matou “ao menos 200 palestinos”, disse o jornal The New York Times. A Associated Press deu a maior estimativa: “ao menos 500 pessoas foram mortas em uma explosão”.

Era mentira. Pior, a fonte da mentira era o Hamas, como admitiu o NYT ao pedir desculpas pelo erro. O que aconteceu de fato foi que um míssil do grupo terrorista Jihad Islâmica Palestina caiu no estacionamento do hospital, sem afetar o prédio em si.

Com base em fotos e vídeos, o analista Blake Spendley calculou que na verdade morreram cerca de 50 pessoas, dez vezes menos do que o número da AP. A agência francesa AFP disse que a inteligência europeia concordava com esse número.

A notícia falsa estimulou vários protestos e o incêndio de uma sinagoga na Tunísia.

Um ano e nove meses depois, parece que pouca coisa mudou no viés da imprensa dominante contra Israel na guerra informacional que acompanha o conflito armado.

Dessa vez, ao cobrir a crise alimentar em Gaza, que é um problema real, usaram a foto de uma criança de 18 meses de idade com um problema genético como “prova” da carestia palestina, pela qual os israelenses são mais uma vez culpados.

A foto apareceu na quarta-feira no jornal britânico Daily Express, depois foi usada pelo NYT, pela BBC, CNN, Sky News e muitos outros. A BBC, por exemplo, parece ter sido enganada pelo fotógrafo Ahmed al-Arini, que alegou que queria “mostrar ao resto do mundo a fome extrema” das crianças e bebês de Gaza.

A fome e os fatos

Prontamente comparado a crianças judias morrendo de fome em campos de concentração nazistas, o menino da foto, Muhammad Al-Matouq, pode ser visto ao lado de um irmão de aparência saudável. O irmão foi cortado da foto que viralizou.

Foi o repórter investigativo David Collier quem descobriu os fatos sobre Al-Matouq. O menino “sofre de paralisia cerebral, tem hipoxemia [baixa oxigenação do sangue] e nasceu com uma doença genética séria”. Ele apresentou como prova um parecer médico emitido em Gaza em maio. “Isso não foi publicado em nenhum grande veículo de comunicação”.

Depois, a CNN mencionou o problema, mas insistindo que o menino tem uma dieta especializada e está em risco de vida por desnutrição “enquanto a situação humanitária piora devido aos ataques contínuos e bloqueio de Israel”.

Collier apontou que a cobertura do NYT enfatizou a narrativa da fome até ao falar sobre o pai do menino: “foi morto no ano passado quando saiu para procurar comida”. Collier questiona esse fato, mostrando um vídeo do próprio Hamas em que seus combatentes atacam as Forças de Defesa de Israel (FDI) “na mesma rua em que o pai de Muhammad supostamente estava ‘procurando por comida’.”

O jornalista acusa a ONU e as ONGs de “impor exigências logísticas impossíveis” sobre a distribuição de alimentos e insumos em Gaza, “pausando entregas de comida por quererem que o Hamas controle a distribuição. Por quê? Porque o Hamas precisa do controle para continuar mandando em Gaza”.

As Forças de Defesa de Israel reconhecem que há um problema na distribuição de alimentos e anunciaram no domingo “pausas locais táticas de atividade militar” entre 10h e as 20h em áreas densamente povoadas da Faixa de Gaza.

O anúncio vem com a retomada de ajuda humanitária por países árabes como o Egito com a autorização de Israel. As novas ações foram coordenadas com a própria ONU e as FDI prometeram criar rotas seguras para os comboios de entrega.

O preço da farinha não mente

Um dos indicadores da realidade da crise alimentar em Gaza é o preço da farinha, um indicador bem objetivo usado pelo professor de economia Yannay Spitzer, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Em setembro de 2023, o preço de um saco de 25 quilos de farinha era de aproximadamente 14 dólares na cidade de Deir Al-Balah, em Gaza, menos afetada pela guerra. Ou 47,5 shekels, moeda local. Em janeiro de 2024, subiu para mais de 300 shekels. Um ano depois, 500 shekels.

Durante o cessar-fogo deste ano, caiu vertiginosamente de volta para 50 shekels. Quando o cessar-fogo terminou em março, o preço saltou de volta para dez vezes mais. Em maio, em poucas semanas subiu de 875 para 1.750 shekels! Este mês, Spitzer recebeu relatos de que o preço por saco tinha atingido 3.750 shekels — cerca de R$ 6.200.

Como os economistas sabem, o preço é um indicativo da escassez. Pessoas mais ignorantes ficam revoltadas com o preço da gasolina ou da água em áreas de desastre, mas o preço é apenas um sintoma de que esses bens de consumo estão em falta. Logo, o aumento de 80 vezes no saco de 25 quilos de farinha em Gaza é por si só um indicativo de crise alimentar e fome.

Um dos problemas que Spitzer está tendo para divulgar seus números é que, cansados de tanta mentira, os próprios israelenses custam a acreditar. É a história do menino e o lobo em uma versão catastrófica.

Moradores da região buscam a verdade por trás da propaganda

Exasperado com a imprensa ocidental repetindo incessantemente propaganda de um dos lados do conflito, o colunista Matti Friedman, que mora em Israel, ligou para muitos de seus colegas que são jornalistas israelenses veteranos. “O consenso foi que quase não há fontes confiáveis a respeito da realidade em Gaza”, escreveu Friedman para o veículo The Free Press.

Uma das fontes não confiáveis em que a imprensa ocidental insiste é o “Ministério da Saúde de Gaza”, um braço do Hamas. Os repórteres palestinos honestos são intimidados pelo grupo terrorista a fazer o enquadramento que mais lhe interessa. Já a agência de refugiados da ONU especialmente criada para os palestinos, a UNRWA, está mancomunada com o Hamas de várias formas. Muitos dos terroristas do 7 de Outubro foram educados nas escolas da agência, onde não faltam provas de doutrinação terrorista em sala de aula.

Como o Hamas não pode ganhar a guerra por poderio bélico, sua principal estratégia no momento é a propaganda. E a propaganda mais poderosa usa fotos como a do menino com problema genético e o sofrimento de outros palestinos inocentes para culpar apenas Israel por uma guerra que o próprio grupo começou, utilizando inclusive de estupros.

“A imprensa internacional não é a resposta”, diz Friedman. “Durante meus anos como repórter e editor da Associated Press, eu vi a cobertura alterada por ameaças do Hamas contra a nossa equipe, enquanto esse fato era escondido dos leitores”.

Mas também não é possível para os israelenses confiar no próprio governo, complementa o colunista. O governo de Benjamin Netanyahu também mente sobre o progresso da guerra, relata o jornalista. Há mais de um ano, o primeiro-ministro alegou que Israel estava a “um passo” da vitória.

As FDI também manipulam. Friedman aponta para um vídeo de membros do Hamas com uma fartura de comida publicado pelas forças armadas na semana passada, com omissão de que as imagens têm um ano de idade e mostram alguns combatentes que já estão mortos.

Quando instituições decepcionam, a solução é buscar indivíduos com um histórico de credibilidade, reflete o colunista. Ele diz que são jornalistas individuais com confiança do público israelense que estão conseguindo mover a opinião pública na direção de reconhecer a crise alimentar em Gaza.

São pessoas como o repórter de guerra Amos Harel, do Haaretz, e Ohad Hemo, correspondente de assuntos palestinos para o Channel 12 News. Hemo relatou, na semana passada, que galpões de armazenamento de alimentos do Hamas estão cheios; logo, a crise não é somente culpa de Israel.

“Não sei se as pessoas estão morrendo diretamente por causa da fome, como vem sendo alegado em Gaza, e precisamos dizê-lo em alto e bom som”, disse Hemo, que diz ter conversado com palestinos que estão há dias sem comer. Homens jovens, com mais força, têm mais acesso aos alimentos que as mulheres e crianças.

Fontes de Friedman dizem que os hospitais de Gaza precisaram cortar as refeições a uma por dia. Uma fonte na alta hierarquia das forças armadas negou que esteja havendo fome em massa como publicado na imprensa, mas que é verdade que dessa vez o enclave está à beira do colapso. Foi por isso que Israel começou a entregar ajuda pelo ar na semana passada, junto com a Jordânia e os Emirados Árabes.

Também há relatos de que o Hamas continua atrapalhando a entrega, desviando os insumos para si próprio e para vender e continuar financiando sua guerra. A opinião pública internacional, contudo, continua a culpar mais Israel que o grupo que governa o enclave desde 2007, cujo estatuto dos anos 1980 chamava explicitamente pela eliminação dos judeus.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade