Ao menos 100 regimes de previdência estaduais e municipais investiram em fundos ligados ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. O levantamento é do jornal Folha de S.Paulo, com base em dados da CVM e do Ministério da Previdência.
Três regimes estaduais e 98 municipais aplicaram recursos em 5 fundos conectados ao Master: Texas I, Áquila, Osasco Properties, São Domingos e Brazilian Graveyard & Death Care. Esses fundos investiram em imóveis, empresas com participação da família Vorcaro, como a BR Cemitérios, e em ações da Ambipar, que perderam valor após a empresa entrar em crise financeira.
Até então, era conhecido apenas que institutos de previdência haviam comprado diretamente letras financeiras do Banco Master. Ao menos 18 órgãos estaduais e municipais adquiriram R$ 1,8 bilhão em papéis sem garantia, entre eles os regimes do Amapá e do Rio de Janeiro.
O levantamento da Folha mostra que mais de uma centena de institutos também atuaram como investidores indiretos, por meio da compra de cotas de fundos ligados ao banco.
Os aportes somavam R$ 238 milhões antes de 2025, pouco antes da queda das ações da Ambipar. Desde então, o valor recuou 57%, puxado principalmente pela desvalorização da companhia, ativo central do fundo Texas I.
O Texas I foi o fundo que mais recebeu recursos dos regimes de previdência. Em agosto de 2025, concentrava R$ 103 milhões desses aportes. Segundo o MPF, o fundo foi usado pelo Banco Master para inflar artificialmente o valor das ações da Ambipar.
Em setembro de 2025, o Texas tinha patrimônio de R$ 634 milhões, com 93% alocados em ações da empresa. Em dezembro, o valor havia caído para R$ 122 milhões.
O fundo pertencia ao Banco Voiter, posteriormente comprado pelo Master e vendido a Augusto Lima, ex-sócio petista de Daniel Vorcaro e investigado pela PF. Guga Lima é ligado a lideranças do PT da Bahia e desenvolveu o CredCesta, a “galinha dos ovos de ouro do PT”.
Os regimes de previdência do Rio e do Amapá perderam juntos cerca de R$ 100 milhões no Texas, após aportes realizados entre junho e setembro de 2025. No Amapá, um investimento de R$ 30 milhões, aprovado dez dias antes do colapso das ações da Ambipar, virou R$ 4,2 milhões em dois meses.
O 2º fundo com mais recursos foi o Áquila, que tinha R$ 83 milhões de regimes de previdência em agosto de 2025. O fundo é citado em investigações como parte da rede apontada como fraudulenta do Master e já havia sido alvo da Operação Fundo Fake, em 2020, por suspeita de pagamento de “rebates” a consultorias que assessoravam institutos previdenciários. Em 2025, o Áquila registrou prejuízo de R$ 20 milhões.
Entre os estados, o maior investidor no Áquila foi o Tocantins, com R$ 21 milhões. O instituto afirmou que os aportes ocorreram entre 2011 e 2014 e que hoje investe apenas em bancos oficiais e títulos do Tesouro.
Nos municípios, Goiânia liderou os aportes. O instituto local manteve R$ 10 milhões no fundo e afirmou que não resgatou os recursos para não materializar o prejuízo. Ata de 2013 registra que a decisão de investir no Áquila ocorreu com a presença de um consultor posteriormente denunciado pelo MPF por receber rebates.
Os fundos São Domingos e Brazilian Graveyard receberam, respectivamente, R$ 20 milhões e R$ 16 milhões de regimes previdenciários. O São Domingos integra a rede de fundos apontados como fraudulentos e possui cotas de empresas ligadas à família Vorcaro. Já o Brazilian Graveyard é administrado pela Zion, gestora que teve Vorcaro como sócio e que adquiriu ativos da BR Cemitérios.
O Osasco Properties foi o fundo com menor volume de aportes, R$ 5 milhões. Investimentos em fundos ligados ao Master geraram prejuízo de R$ 5,1 milhões ao regime de previdência de Santo Antônio de Posse (SP), segundo decisão judicial.
Para chegar aos dados, a Folha cruzou informações da carteira de investimentos de todos os regimes próprios de previdência do país com um mapeamento da rede de fundos do Master, que parte de 6 veículos apontados como suspeitos pelo Banco Central e alcança mais de 150 fundos interligados.
