A Polícia Federal (PF) apontou, em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), uma relação de proximidade entre o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). O documento, que teve o sigilo retirado nesta terça-feira (16), reúne mensagens, registros financeiros e fotografias que, segundo os investigadores, indicariam um vínculo que ultrapassaria a esfera pessoal.
De acordo com a PF, Vorcaro teria custeado despesas de viagens, hospedagens e refeições do parlamentar em diferentes países, além de manter repasses financeiros periódicos que, segundo a investigação, alcançaram pelo menos R$ 6 milhões ao longo de cerca de 20 meses.
Os investigadores afirmam que os elementos reunidos revelam uma relação marcada por benefícios mútuos. No relatório, a corporação sustenta que o vínculo entre ambos “transcende a mera relação pessoal” e se caracteriza como uma relação “funcional e instrumental”, baseada na convergência de interesses.
Entre as evidências citadas estão fotografias encontradas no celular de Vorcaro. Uma das imagens mostra o empresário e o senador a bordo de uma aeronave durante viagem a Nova York, em maio de 2024, para participação em um evento empresarial. Segundo a PF, os registros ajudam a corroborar informações sobre o pagamento de deslocamentos e hospedagens pelo então banqueiro.
Outra série de fotografias mencionada pelos investigadores registra momentos de convivência entre os dois em Courchevel, tradicional estação de esqui nos Alpes franceses. A PF afirma que as imagens coincidem com o período em que despesas atribuídas ao senador e à sua companheira teriam sido custeadas por Vorcaro.
Viagens e gastos no exterior
O relatório detalha despesas atribuídas ao empresário em favor do senador em destinos como França, Estados Unidos e Portugal.
Segundo a investigação, os gastos identificados incluem hospedagens em hotéis de alto padrão, refeições em restaurantes renomados e outros custos relacionados a viagens internacionais. Apenas os valores rastreados em hospedagens e restaurantes somariam mais de R$ 468 mil, sem considerar deslocamentos em aeronaves privadas, que também são mencionados pela PF.
Os investigadores destacam que os benefícios identificados seriam incompatíveis com uma relação pessoal comum e apontam para um padrão contínuo de favorecimentos.
Projetos de lei sob investigação
Além das vantagens financeiras, a Polícia Federal afirma ter encontrado indícios de interlocução entre Vorcaro e o senador em assuntos legislativos de interesse do Banco Master.
Mensagens analisadas pelos investigadores mostram movimentações envolvendo minutas de projetos de lei que, segundo a PF, teriam sido retiradas da residência de Ciro Nogueira, encaminhadas para revisão em escritório indicado por Vorcaro e posteriormente devolvidas ao gabinete parlamentar.
Para a corporação, a dinâmica descrita foge ao procedimento habitual de elaboração legislativa e sugere atuação coordenada em pautas de interesse do empresário.
A investigação também menciona a chamada “Emenda Master”, proposta apresentada no Senado que previa mudanças nas regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Segundo a PF, a medida poderia beneficiar diretamente os negócios da instituição financeira ligada a Vorcaro.
Operação e defesa
O relatório integra a apuração conduzida no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga supostas fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master e a pessoas ligadas ao grupo.
As informações foram encaminhadas ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF, e embasaram medidas autorizadas durante a investigação.
Em manifestações anteriores, a defesa de Ciro afirmou que o senador não participou de qualquer atividade ilícita e que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Os advogados também sustentam que não há irregularidades em sua atuação parlamentar e criticam conclusões baseadas exclusivamente em trocas de mensagens e interpretações da investigação.
Já Daniel Vorcaro segue no centro das apurações sobre o caso. Tentativas de acordo de colaboração premiada apresentadas pelo empresário foram rejeitadas anteriormente pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).




