Em seu depoimento à Polícia Federal, Daniel Vorcaro refutou a acusação de que teria empurrado para o BRB títulos podres avaliados em R$ 12 bilhões, disse que a operação foi acompanhada pelo Banco Central e nunca concluída, justamente por causa da ausência de lastro dos papéis. Segundo ele, o negócio seguiu os trâmites normais de qualquer operação bancária.
“A transação não aconteceu. Para um crime ou para uma fraude acontecer, alguém tem que ter vantagem e outro tem que ter prejuízo. Nesse caso, o BRB não teve prejuízo, nenhum cliente teve prejuízo e o Banco Master não teve vantagem nesse negócio”, disse. O recurso permaneceu numa conta escrow, aguardando que a Tirreno apresentar toda a documentação sobre o consignado.
Vorcaro destacou aos delegados que o Banco Central monitorava todas as operações do Master, cobrando informações adicionais sempre que necessário e, por fim, decidindo por sua autorização ou não. Na prática, o BC não enxergou nada de ilegal que pudesse justificar sua prisão e a liquidação da instituição financeira.
“Sabe quantas comunicações eu tenho com o Banco Central em um ano? Eu estava fazendo a conta, quase 400 cartas. E sobre esse tema tem uma. Sempre que eles havia dúvidas de outros créditos, eles perguntavam, aprofundavam, mandavam fazer marcações. Esse ativo aqui não é bom, tem que marcar para baixo. Isso é a rotina do banco, é o dia a dia. O banco tem ativos que a gente faz que são bons, tem ativos que são ruins. O Banco Central está ali e fiscalizava o banco diariamente. Ele próprio reconhece que, no ano de 2024, repassou toda a carteira e mandou fazer vários ajustes.”
OPERAÇÕES LASTREADAS NO FGC
No depoimento, o banqueiro alegou que, apesar das críticas e alegações de crime, o plano de negócio do Master era “100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso”.
“Essa era a regra do jogo e após a gente começar a crescer, muda-se a regra do jogo. Quando se muda a regra do jogo, a gente precisa se adequar, a gente vai para outros meios de captação e aí inicia-se uma campanha contrária, reputacional contra o banco, que já foi várias vezes provada que não é realidade, pelos mesmos veículos de mídia que são de propriedade de concorrentes, essa é a grande realidade”.
Segundo ele, desde que começou “essa pressão de liquidez”, ele foi ao Banco Central “quase que diuturnamente para criar soluções e evitar um prejuízo para o mercado”. “Independente de questões, acho que a proteção do sistema financeiro deveria ter sido a questão primordial e era o que eu estava fazendo. Sentava com concorrentes, tentei fazer negócio com concorrentes, sentei com investidores estrangeiros.”
Para Vorcaro, seu banco foi alvo de “uma gincana propiciada pelo Departamento de Organização Financeira”, então comandado por Renato Gomes, indicado pelo governo de Jair Bolsonaro em 2022 e que se aposentou em dezembro passado. “O Banco Central tem discricionariedade. Tanto tem discricionariedade que uma diretoria conseguiu criar esse alvoroço todo. Foi a diretoria de Organização Financeira, porque a própria Diretoria de Fiscalização tinha interesse em criar uma solução de mercado até um determinado momento e evitar esse caos que está se instaurando no país por conta disso.”
Reportagens de diferentes veículos sugerem que Gomes tomou decisões que favoreceram o BTG de André Esteves, considerado o inimigo número 1 de Vorcaro.
“Até o dia 17 de novembro, todos os investidores do Banco Master estavam recebendo em dia fundos de pensão, clientes, pessoa física, todo mundo estava recebendo em dia, com muito custo, porque eu estava sofrendo uma pressão que já não era de hoje, já era de muito tempo. Heroicamente, inclusive, a gente foi porque os nossos ativos eram bons, contra tudo o que disseram desde o início. A gente conseguiu ceder ativos próprios, ativos do banco, conseguimos honrar todos os compromissos até aquele dia, que teria tido oportunidade de ter um desfecho muito favorável.”
RELAÇÕES POLÍTICAS
Ao longo do depoimento, Vorcaro também foi questionado pela PF sobre suas relações políticas, especialmente com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. Ele confirmou ter se encontrado com o emedebista, mas negou qualquer conversa não republicana. Disse que o negócio com o BRB foi técnico, sem “facilitação política”.
“O negócio com o BRB foi construído tecnicamente dentro do Banco Central, como eu disse anteriormente, e aí fica a frustração minha, porque não era para a gente estar aqui nessa sala e com essa exposição toda para o país. Porque o prejuízo, no final, não foi só meu, foi do sistema financeiro (…) Então, não teve facilitação política. Eu tive com o governador, sim, algumas vezes, porque ele era um controlador indireto, mas não teve nenhum tipo de questão tratada que não fosse técnica.”
E ainda:
“Se eu tenho tantas relações políticas, como estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo. Então, acho que, primeiro, vale a pena considerar isso.”
Por fim, Vorcaro insistiu que a crise de liquidez do Master foi criada pelo próprio Banco Central, “por mudança de regulação com a pressão dos grandes bancos”. Segundo ele, “mudaram por duas vezes a regra do FGC, porque o mercado se julga dono ali do fundo que é criado justamente para criar competição no mercado”. “Essa mudança pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a gente entregou para o Banco Central, ele era baseado no FGC.”
Leia todo o depoimento de Vorcaro aqui:
