Na década passada, um grupo de pesquisadores liderados pelo psicólogo evolucionista John Tooby decidiu investigar o que motiva a adesão das pessoas às políticas de redistribuição. “Os mercados tiraram milhões da pobreza”, começa o artigo produzido com a pesquisa, “mas permanece uma desigualdade considerável e há uma grande demanda mundial pela redistribuição”.
Os cientistas envolvidos queriam ir mais fundo nas explicações, para além da autodeclaração das pessoas sobre suas crenças políticas. A pesquisa consistiu em 13 estudos simultâneos com mais de 6.000 participantes espalhados por quatro países: Estados Unidos, Índia, Reino Unido e Israel.
Uma das conclusões principais é que a emoção evocada pela ideia da redistribuição é tão importante para a adesão a ela quanto o partido declarado pelos participantes. Ou seja, a defesa do igualitarismo de resultados vem em igual medida da ideologia política e dos sentimentos da pessoa.
Qual emoção está associada a apoiar políticas de redistribuição? Há duas principais. A compaixão pelos pobres e a inveja de rico. Porém, os cientistas observaram que, enquanto a compaixão sozinha é um fator preditivo de dar ajuda concreta para os mais necessitados, isso não é verdade para o apoio à redistribuição. Na verdade, nos Estados Unidos uma grande pesquisa sociológica indica que “o apoio à redistribuição está associado a fazer menos doações para a caridade”.
Como investigar que as pessoas têm inveja de rico
Os pesquisadores envolvidos deram dois cenários de redistribuição para os participantes. No primeiro, seria aplicado um imposto adicional de 10% para os ricos, com uma determinada quantia sendo dada aos pobres. No segundo, a taxa extra contra os ricos seria de 50%, mas o ganho dos pobres seria de apenas metade da quantia do cenário anterior. Os pesquisadores explicaram que, quando os ricos eram menos taxados, a arrecadação subiria e poderia ser usada para ajudar aos pobres.
Logo, o primeiro cenário é de ajuda aos pobres e menos fardo de imposto aos ricos, e o segundo cenário é mais sádico contra ricos e dá menos dinheiro para os pobres. Quem preferisse o segundo cenário estaria dando mostra de que prefere punir ricos a ajudar pobres, um sinal de inveja.
Entre 14% e 18% dos participantes do estudo fizeram essa escolha invejosa. A motivação da inveja foi confirmada com outros testes.
Além da compaixão e da inveja, um terceiro fator preditivo do apoio à redistribuição foi a expectativa de ganho pessoal com a implementação da política. Esses três fatores explicam melhor a adesão à redistribuição do que as crenças das pessoas sobre a justiça.
Para os pesquisadores, o que isso significa é que “a redistribuição exibe motivações vingativas ao lado de motivações humanitárias”.
Além disso, “um gosto pela justiça teve pouco ou nenhum efeito no apoio à redistribuição” — resultado que consideraram “marcante, pois a injustiça é invocada em muitos argumentos pela redistribuição”.
O que eu vejo nisso é que os apoiadores da redistribuição são insinceros quando alegam que defendem essa política porque a consideram justa, quando o que os motiva realmente é (1) parecerem boas pessoas perante sua tribo política, (2) sentir dó dos pobres, sem que isso se traduza em doarem mais para os pobres, e (3) terem inveja de ricos e tentar usar o Estado para tomar o que eles têm, com motivações às vezes sádicas.
Mais estudos corroboram a importância da inveja no impulso socialista de “redistribuir”
Após o trabalho pioneiro de John Tooby, outros pesquisadores testaram as motivações por trás do apoio a políticas de redistribuição.
Chien-An Lin e Timothy Bates, do Departamento de Psicologia da Universidade Edimburgo, refizeram e refinaram o estudo e publicaram suas conclusões em 2020.
Eles decidiram partir a inveja em duas emoções distintas: a inveja benigna, que nos motiva a sermos como a pessoa invejada, e a inveja maliciosa, que envolve hostilidade e a tentativa de derrubar o invejado.
Lin e Bates mostraram que é justamente a inveja maliciosa um dos fatores mais fortemente associados à defesa das políticas redistributivas. Seu modelo validou a ideia dos três fatores de Tooby e colegas, mas mostrou que a inveja maliciosa é singularmente importante.
A dupla da Escócia publicou mais um estudo sobre o assunto no ano passado, no qual buscaram investigar se a ideia da justiça igualitária (uma preferência por distribuir igualmente os recursos entre participantes da cooperação) poderia ser tão importante quanto a inveja maliciosa. Foi encontrado um efeito independente modesto da crença em justiça igualitária, mas a inveja maliciosa continuou sendo um preditor mais forte do apoio a políticas fiscais punitivas para ricos. Inclusive, é mais forte que o interesse em ganho pessoal resultante da política.
Outra pesquisadora que analisou a inveja foi a cientista política dinamarquesa Kristina Hansen. Em um estudo de 2023, ela propõe que há diferentes emoções por trás das atitudes “dar para os pobres” e “tomar dos ricos”, ambas contidas nas metas declaradas de políticas de redistribuição. Quem é motivado pela compaixão quer dar aos pobres, quem é motivado pela inveja quer tomar dos ricos.
Como a inveja envenena a política
Além de facilitar a adesão a soluções socialistas já testadas e rejeitadas pela realidade, a inveja motiva outros comportamentos na política.
Em um estudo de 2023, Michael Moncrieff e Pierre Lienard, da Universidade de Nevada, propuseram que “a inveja parece afetar aspectos centrais da radicalização, em especial o endosso ao extremismo e a aceitação de meios violentos de atingir as metas que se tem, enquanto a radicalização facilita a adoção de ideação conspiratória, em vez de esta última ser a causa da radicalização”.
Os dois cientistas testaram a ideia em 447 participantes. Eles concluíram que, quando as pessoas são incentivadas a monitorar as vantagens alheias e a buscar o apagamento das diferenças de status, a tendência é que se radicalizem e busquem soluções violentas para ressentimentos sociais.
Qualquer semelhança com comunistas propondo a execução da filha de cinco anos de Roberto Justus, porque a menina carregava uma bolsa cara que ganhou de presente, não é mera coincidência. Aliás, isso aconteceu dias após o governo Lula lançar uma grande campanha apostando na retórica da luta de classes e da redistribuição via impostos mais pesados para os ricos.
A conexão entre a inveja maliciosa contra ricos e a defesa da violência política não é uma coincidência, é ligação direta. E quem está mostrando é a ciência, que, talvez por causa de viés político nas universidades, passou muito tempo ignorando essa emoção humana como fator motivador. Não é à toa que é um pecado capital.
Qual é o caminho para o Brasil: buscar e aplicar o que funciona para criar riqueza, ou a obsessão com usar o monopólio da força do Estado para tomar a pouca riqueza que já existe e redistribuí-la?
Que antes das eleições de 2026 mais pessoas abram os olhos para as motivações nefastas e inconfessáveis que muitos têm por trás de sua retórica de suposta compaixão pelos descamisados, retórica que quase sempre vem acompanhada de um absoluto desinteresse pela questão de como a riqueza é criada.
