“Monitor da USP” faz edição silenciosa após errar alegando vantagem da esquerda nas ruas - Claudio Dantas
Brasília, Sexta, 26 de junho de 2026
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“Monitor da USP” faz edição silenciosa após errar alegando vantagem da esquerda nas ruas

Participantes do protesto convocado por Boulos na Avenida Paulista em 10 de julho de 2025. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Participantes do protesto convocado por Boulos na Avenida Paulista em 10 de julho de 2025. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

No dia 10 de julho, líderes de esquerda como o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) conclamaram seus seguidores a marchar na Avenida Paulista contra as tarifas de Donald Trump e contra Bolsonaro. O nome da manifestação foi “Congresso Inimigo do Povo”. A pauta das tarifas foi adicionada de última hora; a pauta anterior defendia o aumento do IOF.

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Como sempre acontece, as tribos políticas começaram uma disputa sobre quem enche mais as ruas: o progressismo ou o conservadorismo, a esquerda ou a direita. E, como tem sido um hábito da imprensa, o “Monitor da USP” foi utilizado como um voto de Minerva no debate.

Usando um software chinês e fotos aéreas próprias, a entidade calculou que 15.100 pessoas estiveram presentes na manifestação. O próprio Monitor sugeriu uma comparação com outra estimativa própria de uma manifestação convocada por Bolsonaro semanas antes, no dia 29 de junho.

“Foi a primeira vez, em período próximo, que uma manifestação da esquerda superou uma manifestação da direita”, disse o grupo em um relatório reproduzido pelo site Poder360. “No último dia 29 de junho, em manifestação pró-Bolsonaro na Av. Paulista, calculamos 12,4 mil pessoas”.

Foi a deixa para a comemoração da militância dentro e fora das redações. “Trump fez esquerda levar mais gente à Paulista do que a direita, calcula USP”, cravou o jornalista Leonardo Sakamoto, em sua coluna no UOL. Manifestação de Boulos “foi maior”, comemorou a revista petista Carta Capital. A estatal Agência Brasil reproduziu a comparação, além da CNN Brasil, portal Metrópoles e outros.

Só há um problema: a afirmação é falsa.

Margem de erro foi ignorada, correção foi feita de forma silenciosa

O relatório do Monitor foi publicado no dia da manifestação de Boulos. Três dias depois, o designer forense Cícero Moraes notou problemas nas estimativas e enviou um email com correções a um dos veículos de imprensa que reproduziram os números.

Cícero reproduziu a contagem com o mesmo algoritmo e as mesmas fotos, obtendo a estimativa de 9.517 pessoas para 29/6 e 8.932 para 10/7. Em vez de afirmar que a manifestação de Bolsonaro, com base nisso, superaria a de Boulos, o especialista foi mais cuidadoso e considerou a margem de erro, que não permite que se descarte a hipótese de que houve um empate.

Em artigo próprio, Cícero apontou outras falhas metodológicas: links quebrados, ausência dos bancos de dados de treinamento, falta de validação com contagens reais e até fotos que eram de outros eventos.

O veículo de comunicação contatado prontamente fez correções com base na reanálise de Cícero Moraes, dando-lhe crédito. Já o Monitor, como mostram as duas versões de seu relatório, fez a correção silenciosamente, sem dar crédito à crítica construtiva, e teimou em afirmar vantagem da esquerda.

“Considerando a margem de erro, apontamos um empate entre ambas manifestações. Contudo, com esta sendo numericamente maior, cabe destacar que foi a primeira vez, em período próximo, que um ato da esquerda superou uma manifestação da direita”, diz o vocabulário ajustado no relatório, na versão atualmente disponível no site da entidade.

Continua errado: se as margens de erro de duas estimativas se sobrepõem, não se pode usar a diferença entre as estimativas centrais para afirmar diferença.

O que é o “Monitor da USP”

Embora criado na USP e coordenado por dois professores da instituição — Márcio Moretto Ribeiro e Pablo Ortellado —, o Monitor do Debate Político no Meio Digital hoje é parte do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), criado em 1969, que se diz independente.

O CEBRAP conta com o apoio da USP, da Prefeitura de São Paulo e outras instituições públicas. Tem também o financiamento da Ford Foundation e da OSF de George Soros, famosas por patrocinar ativismo de esquerda pelo mundo. A “independência”, portanto, é questionável. E a direção do erro, previsível.

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