Proibido de fazer anúncios de programas ou investimentos próprios por causa do defeso eleitoral, Lula resolveu driblar a Justiça e organizou um almoço, no Palácio do Planalto, com Antonio Filosa, CEO global da Stellantis, dona das marcas Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën. Na sequência, plantou na imprensa a notícia de um plano de investimentos de R$ 32 bilhões com a geração de 2 mil postos de trabalho.
Ocorre que o citado plano integra a estratégia regional da montadora e foi apresentado há dois anos, já considerando o ciclo de 2025 a 2030. Ou seja, o presidente da República e Sidônio Palmeira, seu marqueteiro pessoal, resolveram reciclar o anúncio como notícia fresca, investimento novo, para poder gerar um fato político, manchetes e fotos para o programa eleitoral.
A manipulação também está nos números. Enquanto anunciou os R$ 30 bilhões há dois anos, a Stellantis deixou de pagar à União mais de R$ 13 bilhões em tributos. Com voto do ministro Benedito Gonçalves, o STJ permitiu ao grupo usar R$ 13 bilhões em créditos fiscais, oriundos de um programa de incentivo para a fábrica em Pernambuco no Nordeste, para quitar impostos de suas fábricas em São Paulo e Minas gerais.
PROPAGANDA ENGANOSA
Durante o encontro no Planalto, Filosa fez piada com um microfone que apresentou defeito. “Deve ser de origem asiática a bateria”, ironizou. Curiosamente, a Stellantis mantém, com uma montadora chinesa (Leapmotor), parceria voltada ao desenvolvimento de carros elétricos e à cooperação tecnológica.
Ou seja, enquanto critica a tecnologia chinesa, sua própria empresa investe bilhões em tecnologia chinesa. O plano de negócios da Stellantis também prevê a integração crescente da tecnologia híbrida Reev, da Leapmotor, em suas linhas nacionais, como Fiat e Jeep. E as marcas Peugeot e Citroën compartilham, com a Dongfeng, o desenvolvimento de plataformas e tecnologias, por meio da joint venture DPCA na Ásia, planos de futuros lançamentos das marcas francesas na América do Sul.
Esperava-se que Filosa pudesse usar o encontro com Lula para criticar o aumento do percentual de álcool na gasolina, hoje em 32% e com perspectiva de aumento para 35%. Mas aí daria curto-circuito.