Um relatório da Polícia Civil de São Paulo (PCSP) revelou que um helicóptero transportando um suspeito de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) pousou no heliponto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, em 10 de março de 2022. O episódio ocorreu durante a gestão do então governador João Doria (PSDB) e, segundo os investigadores, a autorização foi obtida em poucas horas por meio de articulações políticas.
O caso faz parte da Operação Contaminatio, deflagrada nesta segunda-feira (27), que investiga a atuação da facção criminosa dentro de administrações municipais e possíveis esquemas de financiamento político. A apuração é conduzida pela Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Mogi das Cruzes.
De acordo com os investigadores, o passageiro da aeronave era o empresário João Gabriel de Melo Yamawaki, apontado como suspeito de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. Ele foi preso em março deste ano, após permanecer foragido desde 2025, quando passou a ser alvo de outra operação policial.
As investigações indicam que o pedido para uso do heliponto teria sido intermediado pelo então vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula (PSD), que, em mensagens analisadas pela polícia, afirmou possuir acesso a integrantes do governo estadual. Para justificar a solicitação, teria sido informado que a aeronave transportava uma suposta comitiva estrangeira.
A suspeita dos investigadores é de que o aval tenha sido viabilizado por meio de contatos dentro da estrutura administrativa estadual, possivelmente envolvendo assessores ligados à Secretaria de Desenvolvimento Regional à época. O ex-secretário Marco Vinholi (PSDB), no entanto, negou qualquer participação e afirmou não conhecer os envolvidos.
Em manifestação, João Doria afirmou que não há participação direta do governador na autorização de pousos no local, atribuição que, segundo ele, cabe a outros setores do governo estadual, como a Casa Militar.
O relatório policial classifica o episódio como um indicativo da capacidade de articulação da organização criminosa e alerta para riscos institucionais. Segundo o documento, o caso evidencia tentativas de aproximação do grupo com estruturas públicas e acesso a decisões administrativas.
A Operação Contaminatio é um desdobramento de investigações anteriores que já haviam identificado indícios de financiamento de campanhas políticas por parte da facção. Nesta nova fase, a polícia aponta a existência de uma rede de contatos envolvendo agentes públicos, empresários e possíveis candidatos, com atuação em diferentes regiões do estado.
Além disso, os investigadores apuram a tentativa de inserção de uma instituição financeira ligada ao grupo criminoso na gestão de receitas municipais, o que poderia permitir o controle indireto de tributos e movimentações financeiras públicas.
Ao todo, a operação cumpriu mandados de busca e apreensão e de prisão em diversos estados, incluindo São Paulo, Goiás, Paraná e o Distrito Federal. A Justiça também determinou o bloqueio de centenas de milhões de reais em bens e ativos dos investigados.
