Jorge Mario Bergoglio assumiu a Igreja de Pedro há 12 anos num momento de crise. Pela primeira vez em 600 anos, um papa, Bento XVI, renunciava ao posto ainda em vida. Saída política para reduzir a pressão sobre um Vaticano maculado por escândalos sexuais e financeiros. Francisco foi o caminho para a reabilitação. Um gesto de humildade, mas também de relações públicas. Era preciso demonstrar ao mundo, às vítimas dos abusos e aos católicos que a igreja ainda valia a pena, que ela se importa. Era preciso abrir suas portas e janelas, permitir a entrada da luz, renovar os ares, desarmar os espíritos com uma mensagem de simplicidade e inclusão. Francisco, um jesuíta latino-americano, era o nome ideal para resgatar a fé católica, reconstruir pontes e conduzir a igreja para seu novo momento.
Nesse caminho, promoveu reformas internas fundamentais. Retirou o Vaticano de paraísos fiscais e aumentou a transparência das finanças; deu aval a investigações, tanto internas como externas, contra abusadores sexuais e criou um novo arcabouço legal para coibir novos crimes. Em ato inédito, expulsou da igreja Theodore McCarrick, que foi cardeal e arcebispo de Washington – por ironia, Theodore morreu em 3 de abril, em absoluto ostracismo. Só por essas duas reformas fundamentais, Francisco poderia dar sua missão por cumprida. Mas ele fez mais: reformou o processo canônico de declaração de nulidade matrimonial, tornando o rito mais ágil e acessível, permitindo que milhares de católicos reencontrassem o caminho dos sacramentos, inclusive o da comunhão.
Como um progressista e no seu papel de relações públicas, entretanto, Francisco aderiu totalmente à agenda ambiental, repetiu discursos contra o aquecimento global e levou o Banco do Vaticano a investir na falácia dos créditos de carbono. Seduziu-se pela esquerda globalista, abraçando a narrativa do discurso de ódio nas redes sociais e, a conquistou, ao se colocar ao lado dos imigrantes ilegais, sem ponderar sobre seu uso geopolítico. Visitou a Península Arábica, pregou a fraternidade inter-religiosa com líderes muçulmanos. Tentou se aproximar da China, acolheu Lula e Nicolas Maduro, e custou a criticar Daniel Ortega em sua perseguição aos católicos na Nicarágua. Após 12 anos, fez a Igreja crescer quase 10%, saindo de 1 bilhão e 277 milhões de fiéis para 1 bilhão e 400 milhões, nos cinco continentes. Cumpriu sua missão, mas e agora?
E agora que as circunstâncias mudaram e a agenda globalista se mostrou uma falácia, a imigração virou um problema social tão grave que ameaça o ‘welfare state’? E agora que a narrativa contra o ‘discurso de ódio’ e em defesa da democracia virou ferramenta de censura e domínio de uma esquerda totalitária, que prega a eliminação de rivais políticos, cala críticos, prende inocentes em julgamentos sumários? Como a Igreja ecoará a virtude contra o vício, discernindo entre o certo e o errado, se criminosos viraram vítimas? Como vai combater a pobreza, se o empresário é vilanizado, se a classe média é espoliada pelo Estado para bancar elites corruptas que se cercam a cada dia de mais privilégios e políticas assistencialistas que privilegiam a preguiça contra o mérito? Como o Vaticano usará a diplomacia contra guerras biológicas, cibernéticas e nucleares?
Como vai proteger a propriedade privada, a família e a vida, bases da civilização ocidental, se esses valores foram relativizados em nome de uma suposta luta entre opressores e oprimidos? Com que liderança política e, sobretudo, força moral, a Igreja de Pedro vai guiar a sociedade numa guerra cultural contra ideologias anticristãs? Com que papa?
