Com juros altos e crédito mal planejado, produtores rurais recorrem à Justiça para sobreviver, o governo ignora a crise no campo
O campo brasileiro enfrenta uma crise silenciosa. Em 2024, 2.273 produtores rurais recorreram à recuperação judicial para evitar a falência, um salto de 61,8% em relação ao ano anterior, segundo dados da Aprosoja Brasil e da Abramilho.
“A recuperação judicial é a última alternativa. O problema começa na concessão do crédito sem diagnóstico técnico sobre a produção e o fluxo de caixa”, afirmou o advogado Alisson Giuliano, que acompanha casos do setor.
O cenário é agravado pela política econômica dos últimos anos. O aumento agressivo da taxa Selic encareceu dívidas, e a alta do dólar impactou diretamente o custo dos insumos agrícolas, tornando o custo de produção insustentável.

“O produtor rural foi empurrado para o endividamento. O governo cobra caro pelo crédito e, ao mesmo tempo, não garante segurança jurídica nem infraestrutura para escoar a produção”, avaliou o advogado Ermiro Ferreira Neto, especialista em direito empresarial.
Ferreira Neto ressalta que a recuperação judicial tem funcionado como “respiro temporário” para quem busca reestruturar as dívidas. Durante o chamado stay period, de 180 dias, ficam suspensas execuções e cobranças, permitindo ao produtor reorganizar o negócio e proteger seu patrimônio. “É uma forma de preservar a função econômica do campo, mas não resolve o problema estrutural”, disse.
Para o diretor-executivo da Aprosoja, Fabrício Rosa, os dados reforçam a necessidade de planejamento e reformas. “Os produtores precisam se preparar para o novo ciclo, e o país precisa entender os desafios de quem produz alimentos sob risco constante e com custo crescente”, afirmou.
