O embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), afirmou nesta segunda-feira (6) que o governo brasileiro perde uma oportunidade ao não participar com direito a manifestação da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que discute a proposta de aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.
A declaração foi dada durante entrevista à GloboNews, horas após o início da audiência realizada na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos. O governo do presidente Lula (PT) decidiu enviar representantes da Embaixada do Brasil em Washington apenas para acompanhar a sessão como observadores, sem fazer intervenções.
Segundo Azevêdo, embora o envio de manifestações por escrito seja uma alternativa prevista no processo, a participação presencial oferece uma oportunidade de defender diretamente os interesses brasileiros diante das autoridades responsáveis pela investigação.
“A vantagem de você estar na audiência oral é que você pelo menos está diante das pessoas que vão fazer o julgamento técnico da investigação. São pessoas que estão ouvindo seus argumentos. É muito diferente de você mandar um papel e torcer para que eles leiam”, afirmou.
O ex-diretor da OMC explicou que empresas e entidades do setor produtivo brasileiro fizeram uma avaliação diferente da adotada pelo governo federal e decidiram comparecer à audiência.
“Os clientes com quem eu estou trabalhando, no caso a CNI, a Fiesp, a CSN, optaram por participar da audiência oral também”, disse.
De acordo com Azevêdo, o curto tempo destinado a cada participante exige que os expositores apresentem apenas os argumentos considerados mais relevantes para convencer os técnicos do USTR.
“Nesses cinco minutos você tem que fazer uma seleção de quais são os temas prioritários, quais são os argumentos mais fortes, mais importantes que você acha que não podem ser ignorados numa investigação desse tipo”, declarou.
O embaixador ponderou, no entanto, que a decisão do governo brasileiro pode ter levado em consideração fatores políticos e diplomáticos relacionados à exposição pública da participação na audiência.
“Tem sempre o lado óptico, o lado visível de um governo oferecendo explicações ao outro. Eu acho que talvez esse tipo de cálculo sobre a ótica da participação oral tenha influenciado. Eu não saberia dizer. Essa é uma pergunta que tem que ser feita ao governo brasileiro e não a mim, evidentemente”, afirmou.
Apesar da ressalva, Azevêdo voltou a defender a presença de representantes do Executivo na sessão.
“Eu acho que há um valor em participar pessoalmente, tanto que as empresas, as entidades brasileiras estão ali, presentes e fazendo seus argumentos”, concluiu.
Governo optou por acompanhar audiência sem direito a fala
A audiência pública do USTR teve início nesta segunda-feira (6) e integra a investigação que poderá resultar na imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A decisão final do governo americano é esperada até 15 de julho.
Enquanto o governo brasileiro acompanha a sessão apenas como observador, representantes da indústria e do agronegócio participam das discussões para tentar convencer as autoridades americanas a rever a proposta.
Flávio Bolsonaro
O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, também está inscrito para falar no segundo dia da audiência, nesta terça-feira (7).
Antes da viagem a Washington, o parlamentar encaminhou ao USTR um documento em que pede a suspensão da sobretaxa e o adiamento da decisão por 180 dias, argumentando que a medida prejudicaria produtores, empresas e consumidores dos dois países e que uma negociação após as eleições brasileiras poderia favorecer um acordo.
