“O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (REP/PB), vive entre Ciro Nogueira e Lula.” Essa é a avaliação de um influente deputado do centrão.
Após ceder à base da Câmara na resolução que susta o processo contra o deputado Alexandre Ramagem “por não ter outro jeito”, negar o convite para participar da comitiva do presidente Lula à Rússia e à China e aparecer em foto nos Estados Unidos com senador Ciro Nogueira, Motta deve ajudar o governo e tentar não estressar ainda mais a relação com o STF.
Apelar da decisão da primeira turma ao próprio Tribunal no caso Ramagem é parte do jogo. Colocar fogo no parquinho seria votar alguma medida retaliatória como, por exemplo, a PEC que limita as decisões monocráticas de ministros, que já passou no Senado e na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
Motta também ajuda o governo com recessos brancos semelhantes ao desta semana. O mesmo deputado diz que a “Câmara está (ainda) em ritmo de férias de verão porque ele (Motta) sabe que a Casa funcionando cria problemas para o governo.” Nesse sentido, o pouco volume de trabalho neste ano no Congresso seria proposital: quanto menos Legislativo, melhor para o Executivo.
O esvaziamento de Brasília vem a calhar para diminuir a pressão pela instalação da CPI do INSS.
Segundo monitoramento das redes sociais feito pela Quaest, o escândalo das aposentadorias gerou 2,6 vezes mais mensagens do que o episódio do PIX no início do ano. O vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG) nas redes sobre o INSS teve 108% mais menções do que uma peça similar sobre uma possível taxação dos pagamentos instantâneos em janeiro.
O poder de alcance de Nikolas chama atenção. Seu post representou 20% de todos os links vinculados sobre o tema e a ameaça para o governo foi retratada em números pelo sentimento revelado nas mensagens. Segundo o monitoramento da Quaest, 50% tiveram conotação crítica, 47% foram de conteúdo noticioso e 3% fizeram a defesa do governo. Deputados e senadores tendem a servir como câmara de eco para essa insatisfação.
Com a batalha da comunicação já perdida no caso do INSS, Lula vai tentar virar a página com anúncios populares: gratuidade de energia elétrica para famílias no CAD Único, novo gás para todos e crédito para entregadores de aplicativos, entre outros. Soma-se a essas medidas os já anunciados linhas de subsídios para a classe média acessar ao Minha Casa Minha Vida e a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil.
Para que os anúncios dessas medidas não sejam ofuscados por uma CPI ou projetos ligados à anistia dos participantes dos eventos de 8/1 e do ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula conta com a administração do tempo que Motta (e Davi Alcolumbre) faz da Casa.
Até que as medidas estejam prontas, recessos como o desta semana, causados por viagens internacionais organizados por instituições privadas ou por visitas de Estado, ajudam a aliviar ou, no mínimo, retardar a pressão. Ao confraternizar com Ciro Nogueira em Nova York, Hugo Motta ajuda o governo a ganhar tempo e fôlego em Brasília.
Capital Político
Por Casablanca e Think Policy
